Inclusão transforma a escola num espaço para todos

Nas salas de aula da Casa da Criança Madre Anastácia, entidade parceira da Fundação FEAC, todos os alunos participam das brincadeiras e atividades e a inclusão é vista com respeito. A creche, que atende mais de 270 crianças do bairro Vida Nova, em Campinas/SP, tem como desafio transformar a escola num espaço para todos.

Para trabalhar com crianças com algum tipo de deficiência, a creche decidiu não criar um projeto especialmente dedicado a esses alunos, e sim inclui-los no projeto institucional que considera a todos, sem distinção. O trabalho em cada turma é feito de forma específica e há um olhar para as dificuldades das crianças. O objetivo é que os alunos aprendam a conviver com as diferenças e se tornem cidadãos solidários.

Na instituição, a educação especial é entendida como a modalidade de ensino que tem como objetivo quebrar as barreiras que impedem a criança de exercer a sua cidadania. Lá, o atendimento especializado é apenas um complemento do ensino, e não substituto.

O trabalho não é feito apenas individualmente. “Como nosso projeto é inclusivo, eu gosto de ficar na sala de aula, observando como é o comportamento dessa criança na turma, com seus professores e monitores. Também proponho atividades, que são adaptadas para toda a turma, para que essas crianças sejam contempladas. Desta forma, a integração é maior e eu ainda observo a dificuldade da criança em específico e também de outros alunos, eventualmente”, explicou a professora de educação especial, Camila Possari.

Desta forma, a educação inclusiva significa educar todas as crianças em um mesmo contexto escolar. Com a inclusão, as diferenças não são vistas como problemas, mas como diversidade. E essa variedade acaba ampliando a visão de mundo e desenvolvendo oportunidades de convivência a todas as crianças.

Segundo Camila, cada turma tem um planejamento diferente e com a observação em sala de aula é possível detectar as dificuldades de todos os alunos. “Nem todas as crianças com algum tipo de deficiência frequentam outras instituições e contam com atendimento específico. Então, eu procuro também fazer um atendimento especializado com essas crianças”, disse.

Para a professora é preciso favorecer a diversidade, uma vez que ela considera que todos os alunos podem ter necessidades especiais em algum momento de sua vida escolar. “Procuramos incluir sempre, mas alguns dias da semana os alunos que apresentam alguma deficiência contam com o atendimento especializado. Eles fazem exercícios de atividades motoras, leitura, participam de jogos e brincadeiras específicas”, ressaltou.

Ela explica que muitas vezes, esses alunos são chamados com os colegas, visando um atendimento mais descontraído. “É necessário criar o vínculo com a criança. A partir dessa confiança criada, o trabalho flui melhor. É preciso que esse atendimento individualizado seja tranquilo e significativo, por isso também procuro envolver os outros professores”, relatou.

De acordo com a assessora técnica do programa Primeira Infância em Foco, da Fundação FEAC, Adriana Nunes Silva, a Casa da Criança Madre Anastácia sempre respeitou e valorizou as características individuais de cada criança. Assim sendo, os pequenos são inseridos no contexto diário com muita naturalidade.

“Os profissionais conseguem caracterizar e montar em suas turmas grupos intencionais de colaboração. Reconhecer os potenciais em sala de aula e não querer que todos tenham o mesmo nível de competência ou habilidade intelectual deve ser uma das metas do educador. Cada um deve ser estimulado a participar, realizando aquilo que é capaz”, esclareceu a assessora.

Além disso, todos os profissionais se envolvem com as atividades propostas nos espaços de convívio. “A integração é fantástica e essas atividades são incorporadas ao planejamento para que as crianças possam vivenciá-las com frequência. Incluir as atividades na rotina é não fazer com que ela vire apenas um evento, é mostrar que a diferença está presente”, concluiu Adriana.

Ações

A creche também trabalha com o desenvolvimento da equipe e com a comunicação com as famílias das crianças.

“Na 1ª edição do programa Primeira Infância em Foco, conseguimos contratar uma formadora para potencializar o que vinha sendo desenvolvido na creche. A intenção era fortalecer toda a equipe e não apenas o professor de educação especial. A pedagoga Luciana Cury falou sobre o trabalho das pessoas com inclusão, que exige uma escolha pessoal de atitude para tornar o objetivo possível”, esclareceu Adriana.

O contato com as famílias também é imprescindível para o sucesso do trabalho desenvolvido na creche. “Desde que participamos do programa Primeira Infância em Foco, percebemos a importância de trazer os pais para perto de nós. E isso ainda se torna mais essencial quando falamos das famílias dos alunos com alguma deficiência”, constatou a diretora da instituição, irmã Rosane Dallagnol.

Desta forma, a professora Camila procura reunir-se com os familiares e orientá-los sobre os caminhos a serem seguidos. “Muitos pais não se dão conta das dificuldades de seus filhos ou não sabem onde procurar ajuda especializada. Então nós encaminhamos essa família para uma instituição”, contou.

O pequeno Isaac, de 5 anos, já frequenta a Casa da Criança Paralítica – entidade parceira da Fundação FEAC – e apresenta melhoras no desenvolvimento motor. “Eu procuro conversar com o fisioterapeuta da instituição para que possamos desenvolver um trabalho conjunto. Isso traz benefícios para o pequeno. Essa união família, escola e instituição só traz benefícios”, garantiu a professora.

Valores

Na Creche Madre Anastácia, as salas de aulas recebem nomes relacionados a valores de convivências como Amor, Carinho, Alegria, Bondade, Coragem, Respeito, Amizade, Confiança, Esperança e Sabedoria. E esses valores são trabalhados com todas as crianças.

“As crianças são muito receptivas, aceitam e interagem com todos os alunos que apresentam algum tipo de deficiência, mas mesmo assim não deixamos de trabalhar esses valores”, afirmou a professora.

“Educar requer dedicação, principalmente para ensinar valores importantes como respeito ao próximo. A inclusão é isso e todos ganham com esse exercício de tolerância e respeito”, finalizou a coordenadora pedagógica, Fabiana Masson.

Brinquedos e brincadeiras

A Escola Joana Sena, no município de Natal (RN), organizou um evento com direito a uma oficina de confecção de brinquedos, a partir de produtos recicláveis, além de uma diversidade de brincadeiras envolvendo cantigas de roda.

Em seu registro, a professora Luciana Gomes da Silva, narra cada etapa do evento e os momentos especiais vividos com as crianças durante o dia, bem como os aprendizados proporcionados pelo fomento à sustentabilidade e transmissão de valores ambientais às crianças aprendidos na instituição e levado onde quer que vão.

A Rede Municipal de Educação de Natal, parceira do Paralapracá, marcou presença na semana de 27 a 31 de março no Seminário do Programa Paralapracá 2017, em Salvador. O evento representa um marco para essa nova etapa do Programa, que caminha para consolidar a transferência da tecnologia social do Paralapracá para os municípios parceiros, fomentando a autonomia dos municípios e a integração das diretrizes nacionais que embasam a iniciativa, nas políticas da Educação Infantil. Especialmente as relativas à gestão e formação de formadores deste segmento.

“Minha cor é marrom”, disse Vinicius

Ontem foi dia da formadora/professora encantada trabalhar o tema do mês de novembro, ou de todos os meses. Iniciamos brincando de cor e terminamos brincando com cores em nosso corpo. Vários questionamentos foram levantados, as crianças estão antenadas e espertas. A cultura do preconceito vem de dentro e é preciso erradicar isso de dentro das crianças. Bem, não dá para contar tudo, claro!

Mas, a fala de Vinicius, que é negro, foi contundente. “Não sou negro, sou marrom. Negro é horrível.” Impactos! Vamos trabalhar isso com serenidade. A proposta era deitar e rolar com as cores preto e branco, tão somente.

E o resultado foi positivo.

Já tive oportunidade de trabalhar o tema na Educação Infantil. Todo ano fazemos esse percurso. É claro que, este ano, creio, estou mais empoderada para tratar o assunto. Não só devido às formações que ocorreram nestes últimos anos, como também por essa vivência de mão dupla com as crianças. Venho conversando sobre igualdade racial, fazendo leitura, desenhando, fazendo levantamento de hipóteses, vídeos, debates e, por fim, precisava fazer o fechamento da semana.

Houve toda uma rotina para se chegar à pintura. Passei uma semana pensando como fazer uma atividade que causasse mais impactos, que fizesse eles se olharem, se questionarem, se perguntarem. Então, ontem foi o dia. Essa escuta, olhar, gestos, risos, recusa, foi tudo visto e questionado. As palavras preconceito, cor, marrom, moreno, branco, clarinho, tudo bem. Mas a palavra “negro” foi muito rejeitada. E por quê? “Preto é horrível, feio, ninguém gosta”. Foi muito polêmico, porque as crianças já são convictas de que o branco é o melhor. De modo que, decidimos trabalhar a nossa origem que é africana, indígena, portuguesa, pintando partes de nosso corpo.

Provoquei: somos negros e vamos usar o preto. Neste caso, foram poucos que permitiram o uso da tinta preta. O Vinicius disse que só queria se fosse o branco. Porque ele é marrom (essas atividades dariam para escrever um livro). Ele foi pintado pela colega Kamilly, porque teve a troca, um pintava o outro. Ah! Teve também a desejada atividade da “Mão direita e esquerda”, feita por eles, na qual pintavam uma mão de preto, e outra de branco.

Na Educação Infantil as crianças já desenvolveram seus conceitos de identidade racial. Pesquisas (particularmente norte-americanas) vêm mostrando, de modo recorrente, que, em torno de quatro, cinco anos, as crianças já desenvolveram algum tipo de conceituação ou identificação racial (FAZZI, 2004). Por isso, é tão importante a abordagem do tema, para ampliar as formas de combater preconceitos e violências. Costuma-se achar que as crianças não têm uma forma altamente organizada de pensar. O que não é real. Contudo, precisa das verdades, sem atalhos.

Espero ter contribuído um pouco nessa ação. No ano passado também trabalhei com crianças de quatro anos sobre igualdade racial e uma das crianças fez uma pergunta bem diferente, sobre homossexualidade. Eu respondi sem atalhos, todos gostaram de saber. Depois uma mãe veio me perguntar o que eu tinha dito.

Trabalho voluntario gera satisfação e comprometimento entre família e escola

A dona de casa Kátia Regina Missio Generoso tem presença constante na Escola Estadual Prof. Luiz Gonzaga da Costa, no bairro São João em Campinas/SP. Popular entre a equipe gestora, professores, alunos e funcionários, ela ajuda na entrada e saída dos estudantes, auxilia no trabalho da cantina e faz o que mais precisar na rotina escolar. Kátia é mãe voluntária na escola há sete anos.

Frequentadora da escola desde os oito anos de idade, Kátia Generoso fez todo o ensino fundamental e médio na Luiz Gonzaga, participante da 1ª edição do projeto FEAC na Escola, que tem como objetivo contribuir para a melhoria do desempenho escolar dos alunos e a promoção de uma escolha acolhedora, estimulante e eficaz.

A escola está a cerca de 500 metros de sua casa que fica em frente aos muros desenhados e coloridos da unidade escolar, e também é onde os filhos gêmeos, Matheus e Murilo, de 16 anos, estudam e estão agora no 3º ano do ensino médio.

“Sou da família Missio, que há muitos anos mora na região do bairro São João e sempre tive um vínculo muito grande com as pessoas da escola. O tempo foi passando, vieram os filhos que foram matriculados no colégio e o vínculo se tornou maior. Quando os meninos já estudavam aqui, a escola propôs que os pais se aproximassem e participassem mais da vida escolar dos filhos, e eu topei”, contou Kátia Generoso.

Em reuniões de pais, ela ajuda na organização dos encontros e também nas festas promovidas pela escola em esporádicos fins de semana. Mas como mãe e voluntária, a gestão da escola garante que separa muito bem quando Kátia Generoso participa como mãe nas reuniões de pais e quando ela está trabalhando voluntariamente.

“A ajuda da Kátia e de outras mães é um fator muito positivo, porque ela acompanha e entende todo o processo pedagógico e de aprendizagem da escola e isso acaba ajudando no desenvolvimento dos filhos em casa. É também um prazer, porque compreendendo toda a rotina escolar, ela acaba ajudando a escola a dar certo, e consequentemente, transmite isso para os filhos, que ficam mais engajados em estudar e levar o aprendizado a sério”, avaliou a diretora da escola, Mara Cristina Spalletta Cyrino, que há 14 anos está na gestão da EE Prof Luiz Gonzaga da Costa.

Na opinião da diretora, que afirma ter um canal aberto com a comunidade, esta participação cria um vínculo de respeito entre famílias, alunos e equipe escolar. “Se a comunidade está junto com a escola fica muito mais tranquilo para enfrentar desafios e dificuldades. O benefício é duplo: para a escola que desempenha seu papel com mais satisfação e para os pais que confiam na escola”, ressaltou Mara Cyrino.

Mara tem razão em valorizar a parceria família e escola, já que esta é uma relação essencial para o desenvolvimento da aprendizagem de crianças e adolescentes. É preciso que a família esteja presente e acompanhe a rotina escolar para ajudar e monitorar a escola em sua meta de cumprir a proposta pedagógica planejada. Com uma efetiva participação, soluções para os desafios escolares podem ser criadas e assim, família e escola almejam atingir seus objetivos na formação dos alunos.

Uma maneira de ter a participação efetiva da família nas escolas é a construção de espaços escolares para a discussão de desafios, problemas e outras questões relacionadas aos alunos. “Quando falamos de família e escola, falamos de um dos grandes problemas que no Brasil ainda estamos aprendendo a enfrentar. Outros países já conseguiram entender, inclusive em termos de políticas públicas, o quanto essa parceria é fundamental, e que não se resume em chamar os pais para reuniões, festas ou para pagar um bingo na escola, mas significa chamá-los para participar dos conselhos e ouvir suas opiniões para que eles ajudem a avaliar a escola”, avaliou Luciene Tognetta, pedagoga e líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Moral (GEPEM) da Faculdade de Educação da Unicamp.

Respeito com afeto

Circulando pela escola, que tem cerca de 1.050 alunos matriculados no ensino fundamental, médio e Educação de Jovens e Adultos nos períodos matutino, vespertino e noturno, Kátia Generoso é sempre muito bem recebida. Logo que Ana Carolina Giacomello Magmimi, Gabriely Vitória da Silva e Anna Júlia Gonçlvez de Assis avistam a voluntária no grande pátio, as alunas do 5º ano interrompem o ensaio para a apresentação de dança que estão preparando para as comemorações do Dia da Mulher e a recebem com calorosos beijos e abraços.

“É muito legal ter a Kátia aqui. Sei que ela é mãe de dois alunos que estudam à noite. Acho importante ter os pais na escola para o desenvolvimento das crianças”, disse Anna Julia, com a sabedoria de seus 10 anos. “Ela (Kátia) pega no nosso pé e sempre pergunta se a gente está fazendo a lição, mas isso é bom, porque faz parte da nossa obrigação”, completou Ana Carolina com um tímido sorriso.

Quando está na escola, Kátia Generoso também se transforma na “tia da cantina” nos intervalos das aulas. O lugar cheio de coloridas guloseimas é concorrido pelos alunos que fazem fila para aguardar pacientemente sua vez de fazer o pedido. Com paciência, atenção e carinho, Katia atende um a um, ajudando os menores a fazer as contas que ainda são novidades em suas vidas, ou até mesmo na escolha dos produtos, quando a quantia foi juntada por dois ou três alunos que querem dividir a compra. A cantina pertence à Associação de Pais e Mestres (APM) da escola e o dinheiro arrecadado com as vendas ajuda em pequenas manutenções na escola.

“É um prazer estar na escola, ela é uma extensão da minha casa. Fui muito bem acolhida pela equipe de profissionais e também pelos alunos, todos são como uma família para mim. Acredito que este trabalho voluntário um dia vai servir para meus netos, assim como está sendo importante para meus filhos, e também para filhos de amigos meus, para pessoas que estão vindo para a escola. Essa relação mais próxima com os filhos aqui é essencial para que os pais acompanhem a rotina e o planejamento escolar para o ano todo. O filho se sente mais acolhido e seguro quando os pais estão por perto, e quando acompanhamos a vida escolar dos filhos, acabamos nos aproximando também dos amigos deles e ficando amigos de outros pais. É uma grande satisfação vê-los crescer, aprender e se desenvolver. Isso me traz uma grande felicidade e a certeza de que quero continuar fazendo este trabalho voluntário por muitos anos”, disse Kátia Generoso, que tem no olhar e no sobrenome, a generosidade de alguém que doa tempo e talento para um bem comum.

O que as crianças aprendem ao escutar conversas e ao conversar?

As conversas fazem parte do cotidiano dos adultos e também das crianças, desde bem pequenas. Até que adquiram a linguagem oral, as comunicações da criança acontecem por meio de gestos. Porém, seus avanços intelectuais e o desenvolvimento do pensamento dependem do domínio desse instrumento de comunicação: a linguagem verbal.

Ainda dentro do útero, o bebê é capaz de ouvir a entonação da voz de sua mãe. Por isso, desde esse momento, conversar com o bebê se coloca como fundamental, permitindo que ele se acostume ao som da voz materna e responda a ela, depois do nascimento, estreitando os vínculos mãe e filho(a).

A partir do nascimento, as conversas com o bebê precisam ser mantidas. Não importa, aqui, os assuntos tratados; usualmente, as conversas podem girar em torno do que está acontecendo com o bebê naquele momento ou do que irá acontecer em seguida: “você vai tomar um banho gostoso e depois fazer um soninho”, “agora, você vai mamar. Que delícia!” etc.

Essa interação do bebê com falantes experientes, e com os quais possui um vínculo afetivo (pais, avós e cuidadores, por exemplo), favorece o surgimento dos primeiros sons, seguidos das primeiras palavras e, depois, das primeiras frases.

Nesse sentido, é importante conversar com o bebê e com a criança pequena utilizando todas as possibilidades da língua oral e em distintos contextos, como dando instruções, retomando passos, atividades e momentos do dia, perguntando etc. Isso vai ampliando não apenas o vocabulário da criança, mas também sua capacidade de compreender o sentido do que escuta, de construir enunciados e se comunicar cada vez mais de forma competente. Vale lembrar a necessidade de ouvir a criança, desde quando inicia seus “balbucios”, dando espaço para ela se expressar, afinal, ela está participando da conversa!

E é ainda conversando que as crianças podem ampliar os conhecimentos sobre o mundo que as cerca e compreendê-lo cada vez mais. Conforme crescem, não apenas em torno de temas cotidianos as conversas com elas precisam ser geradas (o que aconteceu ou irá acontecer no dia da criança, do adulto etc.), mas também sobre os mais distintos temas. É importante conversar sobre mudanças que ocorrem em seu corpo, sobre acontecimentos específicos que geram determinados sentimentos ou conflitos (por exemplo, explicar porque não pode bater ou morder um colega, um irmão, e ajudar a criança a descobrir o que fazer ao invés disso, quando é contrariada; antecipar fatos sobre o nascimento de um irmão) e igualmente sobre temas considerados mais complexos, como doenças, mortes, separações etc. Por meio da conversa, a criança poderá entender melhor distintas situações, via explicações dadas pelo adulto, e, por outro lado, poderá se expressar, explicitando o que pensa ou sente em relação a cada uma delas.

As crianças são observadoras atentas não apenas de acontecimentos, mas também das conversas entre os adultos ou do que escutam na TV. Por essa razão, nem sempre é ideal omitir delas acontecimentos ou assuntos que consideremos mais complexos. Se apenas os escutam e não têm a oportunidade de conversar sobre eles, as crianças tendem a criar suas próprias hipóteses e até fantasias por vezes tornando mais sofrido e complicado o enfrentamento desses temas. Nada como uma boa conversa, o que implica numa boa escuta, para ajudar as crianças a entender e a lidar com assuntos e situações mais complexos.

Apresentamos, aqui, alguns aspectos, entre outros tantos, para valorizar a importância de se conversar com as crianças e não perder de vista o tanto que isso as educa!
E você, quer citar outra grande importância de conversar com os bebês e com as crianças?

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Creche: Adaptação com a participação dos pais gera segurança e tranquilidade aos pequenos

“Filha, bom dia, estamos indo para a creche e a mamãe vai te deixar lá e depois vai te buscar.”

A fala é repetida todas as manhãs por Maria Graziela Souza de Jesus à sua filha Laura, de 11 meses. A mãe garante que a criança compreende o que diz. Desde janeiro deste ano, a pequena frequenta a Unidade Educacional Centro de Formação Semente da Vida, no bairro Nova Flamboyant em Campinas/SP.

Em cinco dias, Laura estava totalmente adaptada à nova rotina na creche, graças a um novo procedimento de recepção das crianças adotado pela entidade, inserindo os familiares na fase de adaptação dos pequenos.

A Associação Amigos da Criança (AMIC Village), também adotou o procedimento diferenciado para acolher as crianças que pela primeira vez frequentam a creche, e teve resultados positivos imediatos com o novo acolhimento.

“Nos anos anteriores, a adaptação consistia nos pais deixarem a criança aqui e irem embora, como acontece na maioria das creches. Este procedimento era mais demorado e sofrido para as crianças, porque era uma ruptura da criança com o mundo no qual estava acostumado. Com esta nova acolhida, reduzimos o tempo de adaptação. Algumas crianças levaram somente três dias para se familiarizarem com a creche. Outras demoram um pouco mais, mas o processo traz muito mais segurança à família, tranquilidade às crianças e conhecimento sobre os hábitos dos pequenos à equipe de educadores”, afirmou Amanda Aparecida Verzaro, orientadora pedagógica da AMIC Village.

Maria Teresa Couceiro Ferreira, orientadora pedagógica da Semente da Vida, lembrou que o antigo procedimento de acolhimento era exaustivo para a criança e também para a equipe da entidade. “Mudamos a dinâmica do acolhimento. Incluímos um pai ou responsável pela criança e diminuímos o tempo de permanência, que passou a ser das 7h30 às 9h30 e a tarde das 13h às 15h”, explicou.

Neste período junto aos filhos nas creches, os familiares acompanhavam a nova rotina das crianças, como a hora da alimentação, o momento do banho. “Percebemos que as mães que estão fazendo o acolhimento estão felizes, mais seguras e que já confiam e valorizam o nosso trabalho, porque elas presenciam o olhar carinhoso e cuidadoso das profissionais com as crianças e percebem que nossa atividade colabora com o desenvolvimento da criança”, avaliou Amanda.

“Um dos pontos mais positivos desta nova maneira de fazer o acolhimento é a aproximação da família com a instituição. Já se cria um vínculo entre direção, professores e famílias. Os pais percebem que aqui temos uma unidade de convivência e trabalho e que não existe superioridade para tratar com a criança. Isso quebrou qualquer barreira que poderia existir”, observou Maria Teresa.

Mudanças

Tanto na AMiC Village quanto na Semente da Vida, entidades parceiras da Fundação FEAC, a percepção de que o acolhimento às crianças precisava mudar aconteceu a partir dos encontros de formação que ocorreram durante todo o ano de 2016 nas creches dentro do programa Primeira Infância em Foco, ligado ao Departamento de Educação da FEAC.

“A mudança foi feita a partir da orientação e sugestão da Andrea Patapoff. Com um olhar para a primeira infância, ela viu possibilidades que poderiam deixar o trabalho na creche melhor e mais qualificado, e uma das questões apontava para a transformação deste espaço no sentido de trazer mais segurança e confiança entre os membros da comunidade escolar”, disse Maria Teresa.

Na AMIC Village, foi a formadora Leila Oliveira que chamou a atenção da equipe sobre a necessidade de realizar a adaptação com os pais e assim, garantir que a aproximação com as famílias acontecesse desde o primeiro contato com a entidade.

“A possibilidade das mães acompanharem todo o trabalho realizado dentro da entidade, ao mesmo tempo que a equipe conhece as particularidades das crianças, é muito gratificante. A família está acreditando mais em nosso trabalho, levando novos conhecimentos sobre a evolução de seus filhos e percebe que aqui tudo é pensado para a criança, que se desenvolve com mais plenitude e autonomia”, frisou Amanda, que já planeja aprimoramentos para o acolhimento do próximo ano. “Queremos ampliar o acolhimento e trazer também familiares de crianças mais velhas para conhecerem o cotidiano da creche”. NA AMIC, 40 crianças estão na fase de adaptação e na Semente da Vida, 22 já passaram pelo processo desde janeiro de 2017.

Desenvolvimento

O período de adaptação dos pequenos na creche é essencial, pois as experiências iniciais influenciam em seu desenvolvimento. A criança, quando chega ao novo ambiente, já possui identificação com a figura de um adulto e apresenta um comportamento de apego em relação ao mesmo. A segurança transmitida pela figura de apego traz implicações diretas ao bem-estar e desenvolvimento da criança.

“Se a figura de apego – algum familiar- permanecer na creche durante o período de adaptação, isso vai proporcionar uma base segura para o pequeno estabelecer vínculos afetivos, tanto com as educadoras como para explorar o novo ambiente, tornando-os conhecidos”, explicou a assessora técnica do Departamento de Educação da FEAC, Adriana Silva.

Segundo Adriana, a experiência do familiar estar na creche e cuidar do filho na presença do educador foi extremamente positiva e gerou na criança um sentimento de segurança, ao mesmo tempo em que possibilitou ao educador aprender sobre o bebê. Assim, os sentimentos dos pais foram positivos, promovendo uma aproximação com a creche.

Aprovação

Quando a direção da Semente da Vida propôs a mudança do acolhimento das crianças no início de 2017, os familiares aceitaram e aprovaram imediatamente a mudança. “A gente teve a noção de como é o dia a dia das crianças na creche e os cuidados das professoras e monitoras com eles. Eu pude acompanhar tudo: a hora do lanche, da brincadeira, e todas as outras atividades da entidade. Isso despertou minha consciência para a importância dos pequenos vivenciarem esta rotina da creche, e como isso influencia diretamente o desenvolvimento deles”, afirmou Talita Cristina de Jesus Gomes, que este ano acompanhou a filha mais nova, Ana Júlia, de nove meses, em seus primeiros dias na nova rotina escolar.

“Achei ótimo esse período de adaptação. Me passou mais segurança ver o comportamento dela aqui na creche e perceber que a equipe é muito prestativa. E ela também se adaptou sem estresse porque eu estava por perto. Assim, vou trabalhar tranquila”, definiu Maria Graziela, a mãe da Laura.

Adaptação e arte

Na AMIC Village, as mães que foram acompanhar a adaptação dos filhos contaram ainda com uma oficina de artesanato oferecida em parceria com o Projeto Intergeracional da Secretaria Municipal de Cidadania Assistência e Inclusão Social.

Segundo a arte educadora Silvia Helena Martins Bearzotti, na oficina realizada uma vez por semana, a intenção é que os participantes aprendam a fazer brinquedos para seus filhos, a partir da noção de costura e técnicas artesanais. “O principal objetivo é promover o relacionamento entre os familiares e educadores e aproximar as mães da escola.

Concentrada em recortar o colorido feltro que se transformará em um urso para a filha Eloísa, de 1 ano e quatro meses, Maria Auxiliadora da Silva disse estar surpresa e feliz com a nova rotina da filha na creche. “A princípio eu queria que minha filha viesse pra creche só a partir dos 4 anos, mas devido à minha necessidade, precisei que ela entrasse agora na entidade e mudei de opinião. Hoje eu penso que ela poderia ter entrado mais cedo. Quando a gente acompanha e entende a rotina da creche, podemos ver o carinho que a equipe tem pelas crianças e também pelas mães e hoje tenho convicção da qualidade do trabalho desenvolvido aqui na AMIC. Sei que aqui é um lugar bom para que minha filha possa brincar feliz, se sentir segura, socializar com outras crianças e ter uma rotina. Pra mim, a adaptação foi ótima, porque acabou com qualquer pensamento ruim sobre como minha filha estaria reagindo a esta adaptação comigo à distância. Saber que estou há poucos metros da Eloisa para qualquer coisa que ela possa precisar de mim, é muito reconfortante. Aqui não há barreiras para que o trabalho da escola seja conhecido e acompanhado pelos pais”, definiu.

Saiba mais: Semente da vida: www.sementedavida.org.br

AMIC Village: www.amic.org.br

Primeiro Festival de Invenção e Criatividade (FIC)

O Instituto Catalisador é um dos organizadores do FIC – Primeiro Festival de Invenção e Criatividade.

O Festival de Invenção e Criatividade (www.ficmaker.org.br) é uma grande celebração do espírito inventivo, colaborativo e mão na massa da educação brasileira. Nele, crianças, jovens, seus familiares e educadores terão a oportunidade de explorar materiais e tecnologias high e low tech, participar de atividades e aprender de forma estimulante e descontraída.

O Festival tem como objetivos divulgar, inspirar e facilitar a implementação de atividades de aprendizagem criativa em ambientes educacionais formais e não formais de todo o país.

A primeira edição do Festival de Invenção e Criatividade ocorrerá na POLI-USP, em conjunto com a FEBRACE 2017 – 15ª Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (www.febrace.org.br) – entre os dias 21 e 23 de março, com visitação aberta e gratuita.

Uma das ações da FIC é o Calendário Cidade Criativa que tem por objetivo divulgar outras atividades mão na massa que estarão acontecendo em março na cidade de São Paulo, articuladas pela Rede Brasileira de Aprendizagem Criativa e sob a responsabilidade de entidades parceiras.

Mais informações a seguir:

Participe você também do Calendário Cidade Criativa e mostre que São Paulo é uma cidade Mão na Massa!

São Paulo, com sua diversidade de culturas, pessoas, espaços e propósitos, se expressa criativamente de formas múltiplas em todo o seu território. Sabemos que, cidade afora, muitos educadores em escolas e espaços não formais de educação já engajam crianças, jovens e adultos em projetos e práticas de Aprendizagem Criativa que incentivam a expressão pessoal, a construção mão na massa, a colaboração e o espírito lúdico.

Como parte constituinte do 1°Festival de Invenção e Criatividade (FIC), estamos organizando o Calendário Cidade Criativa, que irá reunir as atividades de Aprendizagem Criativa da cidade de São Paulo e ajudar a divulgá-las para todos.

Convidamos educadores e iniciativas voltadas à Aprendizagem Criativa a participarem do Calendário Cidade Criativa, organizando oficinas, cursos e encontros entre os dias 14 e 29 de março de 2017. Para inscrever um evento no Calendário Cidade Criativa, preencha o formulário de inscrição disponível em: http://www.ficmaker.org.br/.

Gentileza e sentimentos auxiliam na resolução de conflitos e aprendizado

Vamos falar sobre sentimentos e gentileza? A proposta inusitada da professora Michelle Felippe Barthazar para a turma do 2º ano B da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Padre Leão Vallerie, no Parque Valença em Campinas/SP, foi aceita com empolgação pelos alunos em fase de alfabetização.

Na sala com carteiras dispostas em U, de maneira que todos os cerca de 30 alunos consigam se ver, as letras do alfabeto dividem espaço nas paredes com cartazes, desenhos e colagens que remetem às várias expressões emocionais. A colorida Árvore de Boas Atitudes e Sentimentos é formada por recortes que apontam o que os alunos consideram importante para uma boa convivência na escola e estão em sintonia com o que é tratado em sala de aula.

A tarefa da manhã quente daquela quarta-feira, quando estive com a turma, foi criar Pratinhos dos Sentimentos. A partir de um círculo dividido em quatro espaços em uma folha de papel, os alunos desenharam quatro carinhas que expressam os sentimentos que consideram os mais importantes. Lucas Gabriel da Silva, 7 anos, caprichou em seus desenhos e escolheu um giz de cera com um tom bem próximo da cor de sua pele para colorir suas expressões. “Eu me sinto bem, alegre e tranquilo fazendo as atividades sobre os sentimentos que a professora pede. Aprendi que quando sentimos carinho pelas pessoas que são boas conosco, é legal retribuir esse sentimento”, disse.

Alegria, tristeza, raiva e medo foram as expressões escolhidas por Maria Eduarda Abonissio da Silva, 7 anos, para compor seu Pratinho de Sentimentos. “A gente sempre tem que retribuir a bondade das pessoas, mas quando o sentimento é ruim, podemos lidar com eles também. Por exemplo, quando uma amiga está chorando e triste, eu quero ajudar e conversar para que ela melhore”, explicou.

Depois de terminado o desenho, as crianças o recortaram, e com a ajuda da professora, colaram as expressões em um pratinho de plástico. A ideia é que todos os dias, os alunos indiquem, com um prendedor que foi decorado com tinta e glitter pelos próprios alunos, como ele está se sentindo. “O objetivo é que o Pratinho de Sentimentos ajude as crianças a se expressarem e os pais a entenderem melhor como os filhos se sentem naquele determinado dia ou momento”, explicou Michelle.

Conflitos x aprendizado

Para Michelle, conhecer os alunos e perceber o que estão sentindo está diretamente relacionado à mediação de conflitos escolares e à aprendizagem dos pequenos nesta fase de alfabetização. “O mais significativo em todo esse processo é poder criar diálogos para a solução de discórdias e assim ajudar os alunos a lidar melhor com essa questão dos sentimentos. A aprendizagem está permeada pelos conflitos, que se não forem resolvidos influenciam diretamente no ensino e aprendizagem”, afirmou.

Empatia

O que a professora desenvolve em sala de aula tem relação com o ensino de empatia*, que é o sentimento que conecta as pessoas umas às outras captando o que o outro está sentindo. Ensinar sobre a empatia é fazer com que a criança entenda a visão e os valores do próximo e aprenda a se colocar no lugar do outro. Isso resulta em relações interpessoais mais consistentes e onde cooperação, compreensão e solidariedade estão presentes, desenvolvendo na criança o respeito à diversidade, a capacidade do diálogo e a criatividade.

Vivemos em sociedades onde a preocupação com o outro nem sempre é prioridade e neste sentido, a falta de empatia pode ser associada a problemas como o bullying, a intolerância, o preconceito e a violência. E o trabalho com temas relacionados à sentimentos e gentileza que a professora Michelle desenvolve com seus alunos vai justamente nesta contramão, estimulando as crianças a terem relações sociais saudáveis.

Outros resultados positivos que o desenvolvimento da empatia pode acarretar para a criança e seu futuro são o aumento da habilidade de superar adversidades, de lidar com diferenças e conflitos e trazer benefícios na saúde, nos estudos e na carreira profissional.
O assunto também está previsto na Base Nacional Comum Curricular (http://basenacionalcomum.mec.gov.br/#/site/início) que deve ter sua versão finalizada neste ano. O documento prevê um conteúdo mínimo que deve ser ensinado da educação infantil ao ensino médio, em todas as escolas municipais, estaduais, federais e particulares. A proposta-base deverá contar com três macro competências: as socioemocionais, as comunicacionais e as cognitivas (conteúdo das disciplinas). A inclusão das habilidades socioemocionais, como empatia, cooperação e liderança, assim como a competência comunicativa, devido às múltiplas linguagens do mundo atual, visam promover uma formação mais completa para os alunos, muito além das disciplinas que já existem tradicionalmente na grade escolar.

Na direção certa

Com o apoio da família e tendo a continuidade de um trabalho iniciado no ano anterior, o trabalho de Michelle vai de vento em popa. Na opinião de especialistas, a professora está mesmo no caminho certo. Segundo o filósofo francês Edgar Morin, um dos principais objetivos da educação é ensinar valores, que são incorporados pela criança desde muito cedo. “É preciso mostrar a ela como compreender a si mesma para que possa compreender os outros e a humanidade em geral. Os alunos têm de conhecer as particularidades do ser humano e o papel dele na era planetária que vivemos”, disse em entrevista para a revista Prosa Verso e Arte. De acordo com Morin, o sistema educacional, de maneira geral, não incorpora essas discussões e fragmenta a realidade, simplifica o complexo, separa o que é inseparável e ignora a multiplicidade e a diversidade.

Cláudia Chebabi, gerente do Departamento de Educação da Fundação FEAC, concorda com Morin e complementa. “O trabalho da professora é pautado em uma visão do sujeito integral, onde ele não está olhando para alguém limitando a aprendizagem a um viés conteudista. Então olhar para o sujeito de forma integral entendendo que ele está contribuindo para a construção de valores é o que tem de mais rico, porque fazer a construção coletiva de um livro acaba sendo um meio de aprender a escrever, e para criar uma frase, a criança precisa de um raciocínio, o que é uma aprendizagem formal. Portanto, trabalhar com essas temáticas transversais é muito significativo, pois é preciso reconhecer que as relações são importantes, que conceitos como o que eu penso a respeito de algo, como me comporto frente a um conflito e como entendo o que o outro está sentindo é essencial”, avaliou.

Livros coletivos

A necessidade de falar de sentimentos em sala de aula surgiu em reuniões com relato de pais, sobre as angústias a respeito da criação dos filhos, em lidar com frustações e impor limites. Muito mais do que checar as notas e o comportamento das crianças, os encontros com eles foram transformados em espaços de diálogo. A partir disso, e de uma situação em sala de aula em que uma criança disse para outra que seu cabelo era feio, por ser afro, Michelle sentiu a necessidade de lidar com essas questões em sala de aula.

O trabalho com temáticas transversais às curriculares foi iniciado em 2016, quando a mesma turma estava no 1º ano do ensino fundamental. O primeiro trabalho teve como tema a família, e além de atividades como desenhar e pintar cada uma das crianças em tamanho real e trazer uma cabelereira especialista em estilo afro para a sala de aula que ensinou as crianças como cuidar e valorizar a diversidade de seus cabelos, Michelle criou um livro coletivo sobre o tema. Nele, as crianças expressavam como enxergavam sua composição familiar. A dinâmica consistia no aluno levar o livro para casa e junto com familiares, expressar como era sua família, por meio de desenho e texto.

“A gente (alunos e famílias) já se conhece desde o primeiro ano do ensino fundamental, e o fato do trabalho ter tido uma continuidade foi muito importante. Conhecê-los facilitou o processo. Aprender a ler, escrever é uma ânsia muito grande que os pais têm em relação à escola e aos filhos nestes primeiros anos do ensino fundamental, mas como já trabalhamos esses temas transversais desde o ano passado, as famílias já entendem, reconhecem a importância e não sentem mais estranhamento quando os alunos chegam em casa e dizem que tiveram aula sobre sentimentos”, explicou Michelle.

Quando a sala estava trabalhando sobre como se sentiam em relação à família e identidade, surgiu o tema sentimentos. Os alunos começaram a trazer relatos cotidianos sobre as diferentes emoções que vivenciavam em seus cotidianos. “Eles já sentem muito, mas não sabem nomear, não sabem dizer exatamente o que estão sentindo, mas começam a perceber as sutilezas entre os sentimentos, que são um refinamento das emoções”, disse Michelle.

A professora garante que as discussões sobre sentimentos e gentileza com os alunos facilita seu trabalho. “A escola é um espaço de conflito por excelência. Trabalhar com esses temas transversais facilita muito o desenvolvimento dos conteúdos curriculares. Uma produção de texto, um gráfico que estejam relacionados com sentimentos e gentileza, que são os temas tratados hoje em sala de aula, tem muito mais significado para os alunos e mesclados às disciplinas, facilitam o entendimento das crianças. Tudo que para os alunos tem algum significado, eles fazem com mais atenção, mais empenho e assim acabam aprendendo mais rápido e com mais facilidade”, avaliou a professora.

Produção atual

Este ano, os livros que estão sendo escritos coletivamente com alunos e famílias do 2º ano B têm como tema Gentileza e Sentimentos. Confeccionados pela professora, com folhas sulfite tamanho A4 unidas por um espiral, os livros trazem a definição dos temas e atos que os exemplificam. As páginas seguintes são destinadas aos alunos e suas famílias se expressarem sobre os temas.
No Gentileza, a página é dividida em duas partes: na parte de cima, os alunos expressam um ato gentil que fizeram e na parte inferior, uma gentileza recebida. Seguro e orgulhoso de suas vivências gentis, Alexander Severiano da Silva Júnior mostra a página que completou. Ele escolheu compartilhar com os colegas o dia em que serviu café da manhã na cama para a mãe; e que recebeu gentilmente um assento no transporte coletivo cedido por uma mulher.

No Livro dos Sentimentos, o aluno ilustra qual foi o sentimento vivenciado que foi marcante para ele. Logo abaixo, escreve qual foi o sentimento. O desafio é que os pais participem do registro. No dia seguinte, o aluno apresenta para toda sala o que escreveu no livro, e o assunto serve de gancho para discutir o tema com toda a sala. “O resultado está sendo surpreendente. Até agora, apareceram sentimentos muito diversos, como a vergonha, a raiva e a explicação é sempre bem contextualizada. E a gentileza está sendo exercitada todos os dias pelos alunos, que já tem um olhar mais aguçado para o outro. Eles começam a entender que a gentileza acontece no dia a dia e nos pequenos gestos”, disse orgulhosa de seus pequenos alunos, que em tempos de individualismo acentuado, vão aprendendo a demonstrar gentileza e entender o que sentem, se tornando assim pessoas que praticam a cidadania em atos diários.

Destaque na FEAC

O trabalho inédito que a professora Michelle desenvolve é uma das ações pedagógicas da EMEF Padre Leão Vallerie que se destaca como boas práticas na rede pública de ensino de Campinas. Em iniciativas da Fundação FEAC e do Compromisso Campinas pela Educação (CCE), alunos da EMEF foram vencedores do Concurso de Redação Minha Família na Escola, conquistando a terceira e a segunda colocação em 2010 e 2014, respectivamente.

O Concurso tem como objetivo estimular alunos dos 5º e 9º anos do ensino fundamental das escolas públicas de Campinas a se expressarem sobre assuntos referentes à participação da família na vida escolar, e em 2017 vai para sua 8ª edição. Em 2016, o “Projeto Escologia: a mudança é você quem cria!” (https://www.youtube.com/watch?v=1pp5qFKS3i8) se destacou ocupando o segundo lugar no prêmio Atitude Educação, que desde 2014, visa valorizar as ações que qualificam a educação pública em Campinas.

“Inciativas de premiação são valiosas não pelo prêmio em si, mas pela oportunidade de divulgação de escolas públicas que desenvolvem trabalhos competentes e assim, podem ser reconhecidas e valorizadas. Existe ainda um ganho intangível, em relação a motivação dos alunos em participarem deste tipo de iniciativas que ocorrem no ambiente escolar. Em várias oportunidades, diretores, professores e até familiares dos alunos relataram situações em que houve maior empenho e envolvimento dos alunos nas atividades escolares. No final, o prêmio se torna secundário e os ganhos marginais, de fato são os mais significativos”, ressaltou Cláudia Chebabi.

O Atitude Educação e o Minha Família na Escola são ações do CCE, que tem como meta sensibilizar e mobilizar a sociedade para contribuir com a defesa e garantia dos direitos à educação pública de qualidade em Campinas/SP.

Saiba mais sobre o CCE e suas ações: www.compromissocampinas.org.br

*Saiba mais sobre o ensino de empatia: https://manifesto55.com/importancia-de-ensinar-empatia-na-sala-de-aula-e-tambem-fora-dela/

Diário de classe 

Quando cheguei na sala de aula do 2º ano B, as crianças já estavam ansiosas à minha espera. Fui recebida com olhares empolgados e curiosos e convidada pela professora a me sentar. Assim que me acomodei no fundo da sala, uma das alunas veio perguntar o meu nome e idade. Não demorou muito para outra aluna perguntar se eu tinha filhos, e rapidamente, me senti à vontade circulando pela sala e conversando com os pequenos sobre os Pratinhos dos Sentimentos que estavam criando, cada um à sua maneira e com interpretações diversas. Depois de acompanhar toda a atividade, já estava me preparando para me despedir da turma, quando fui surpreendida por uma homenagem, preparada pela professora e seus alunos. Ganhei um original Kit Gentileza, composto com produtos para serem usados em diferentes situações: um vasinho de flores para momentos de solidão; um pacote de lenços de papel para quando me sentir triste; uma caneca para que eu possa tomar água quando estiver nervosa e um pirulito e uma máscara carnavalesca, especialmente decorada pelas crianças e pela educadora, para meus momentos felizes. Cada um dos itens foi entregue por diferentes alunos, acompanhados da explicação de seus significados. Depois que agradeci o meu Kit, ainda ganhei um abraço coletivo das crianças. Fiquei emocionada com tanta gentileza, tanto carinho e atenção. E agradecida também por ter a oportunidade, como jornalista, de conhecer trabalhos que fazem a diferença nas escolas, e que impactam positivamente em crianças que estão se desenvolvendo e têm tudo para se tornarem adultos conscientes e cidadãos.

Hora da refeição: móveis adequados promovem desenvolvimento e autonomia para crianças

Comer para aprender e se desenvolver. Esta é a proposta que creches adotam na hora da refeição dos pequenos. Muito mais do que o valor nutricional, a hora da refeição para crianças de 4 meses a 1 ano de idade está relacionada ao desenvolvimento de autonomia e o ambiente do refeitório é um local de aprendizado e onde acontece o estreitamento de vínculos afetivos.

Na Unidade Educacional Spes – Serviço Social da Paroquia São Paulo Apostolo, que fica no Jardim São Marcos em Campinas/SP, a equipe pedagógica utiliza mesas e cadeiras especialmente desenvolvidas para a faixa etária de crianças de até 1 ano desde julho de 2016, por orientação de Leila Oliveira Costa, pedagoga, mestre em educação e especialista em educação infantil, que promoveu formações na entidade parceira da FEAC por meio do programa Primeira Infância em Foco, ligado ao Departamento de Educação da Fundação.

“Um dos objetivos das formações da equipe pedagógica com a Leila era a melhoria da qualidade na hora alimentação para que a criança pudesse se desenvolver na íntegra, indo além da sala de aula. Antes de adotarmos o novo mobiliário para a refeição dos pequenos, tínhamos mesas convencionais, que eram compridas, e as crianças sentavam em cadeiras de plástico que não estavam adequadas ao seu tamanho e eram desconfortáveis para elas. Além disso, todo o manejo da comida era feito pelas profissionais, as crianças só recebiam o alimento”, explicou Michele Soares Salomão, orientadora pedagógica do Spes. A adequação do mobiliário para as refeições das crianças faz parte da abordagem pickleriana, que entre outros aspectos, defende que o desenvolvimento das competências da criança deve seguir livremente.

A partir do novo olhar que as educadoras passaram a ter sobre a questão da alimentação dos pequenos, foram adquiridas mesas e cadeiras em madeira ergonometricamente pensadas e planejadas, respeitando a curvatura corporal das crianças. “A ideia da cadeira e da mesa é que a criança fique com o pé apoiado no chão. Assim, ela consegue desenvolver equilíbrio para segurar a colher e se alimentar com excelência, com mais precisão, porque todo o equilíbrio dela está na segurança que tem de ter a planta do pé no chão”, explicou Michele.

O equilíbrio físico da criança é diretamente relacionado ao desenvolvimento psíquico, como defendia Henry Wallon**, médico, psicólogo e filósofo francês. “Com os pés apoiados, a criança conecta o equilíbrio do corpo e assim se sente segura e competente, o que está relacionado com a inteligência e o prazer em conseguir desenvolver os movimentos e se apropriar do espaço físico onde está inserida”, explicou Leila Costa.

As Unidades Educacionais parceiras da FEAC são pioneiras entre as instituições públicas de Campinas no uso desse tipo de mobiliário. Além do Spes, a Casa da Criança Meimei, Associação Amigos da Criança (AMIC) Monte Cristo e o Centro de Formação Semente da Vida também trabalham com móveis planejados para a alimentação das crianças. Em breve a AMIC Village também adotará o mobiliário.

Investimento

Na Spes, 114 crianças de 4 meses a 5 anos e 11 meses são atendidas em período integral. Por isso, alguns dos principais momentos de interação vividos na escola são os das quatro refeições diárias oferecidas: café da manhã; almoço; lanche da tarde e janta.

O investimento da creche na compra de mobiliário adequado – por meio do Primeira Infância em Foco- visa o pleno desenvolvimento autônomo da turma do berçário. “A construção do vínculo entre criança e educadora se estabelece por meio de cuidados diários, e um deles é a alimentação. Sendo assim, criar um ambiente de aprendizagem durante esse momento é necessário para que os pequenos possam desenvolver suas potencialidades, se socializar e conquistar autonomia”, analisou Adriana Silva, assessora técnica do Departamento de Educação da Fundação FEAC.

Adriana explicou que o desenvolvimento motor na criança é acompanhado de perto pelo desenvolvimento do seu equilíbrio, que lhe permite a autonomia para se alimentar e lhe dá uma noção real do espaço que ocupa no ambiente. “Para a criança, o movimento representa muito mais que um prazer funcional. E poder ter um desenvolvimento motor pleno e saudável permite que ela adquira conhecimento sobre si e sobre seu corpo, sobre tudo o que é capaz de fazer e conquistar, se tornando protagonista da ação. Neste caso, o sentimento de competência do pequeno não é bloqueado pela figura de um adulto”, avaliou.

Mudança de hábito

A adaptação com o novo mobiliário não foi fácil para as educadoras. A dificuldade foi quebrar o hábito de querer fazer pela criança. “Antes a profissional ficava em pé ou na ponta da mesa alimentando cinco ou seis de uma vez só, em uma ação mecânica. As crianças não conseguiam visualizar a educadora de forma apropriada, na altura de seus olhos. Com essa nova proposta, a educadora fica em um banquinho na lateral da mesa, onde sentam-se quatro crianças, assim, ela tem a visão dos pequenos pelos quais é responsável na hora da refeição.

Desta forma, segundo a orientadora pedagógica, as crianças conseguiram entender a logística do processo onde estão inseridas. Quando as crianças sentaram na cadeirinha- e isto acontece no tempo de cada uma delas – imediatamente já conseguiram se ajeitar e levantar sozinhas, sem auxílio do adulto, demonstrando autonomia e independência.

E isto levou a outros progressos. Os pequenos começaram a segurar o prato, a colher, demonstravam estar satisfeitos com a refeição afastando o prato, e até escolher o lugar preferido na mesa. A sala da turma do berçário fica estrategicamente próxima das mesas e cadeiras no refeitório, e chegar e sair do local de refeição sozinha, sem serem levadas pelas educadoras e diminuindo o tempo de espera, também foi um progresso que as crianças conquistaram.

Mas antes dos pequenos começarem a usar o mobiliário para comer, é feita toda uma adaptação, começando pela colocação das cadeiras e mesas dentro da sala de aula, para que os pequenos possam se familiarizar. Em cerca de três dias, as crianças já estão usando o mobiliário. “Além da familiarização em sala de aula, existe uma trajetória para que a criança sente sozinha na cadeira e consiga manusear a colher, e para as que ainda não conseguem sentar sozinhas, elas primeiramente passam pelo colo da educadora”, disse Michele.

“Perceber que as crianças passam a ter domínio sobre o ato de comer e de ir e vir sem o auxílio do adulto é fantástico. O que adquiriram aqui é a autonomia do movimento, de poder fazer por eles mesmos. Como um dos resultados, os pequenos começaram a perceber que o universo do refeitório, antes tão barulhento, ficou mais tranquilo, interessante e significativo para eles, porque realmente passaram a fazer parte daquele ambiente de refeição, comendo melhor, com menos choro e também interagindo mais com a comida: pegando, cheirando e inclusive desenvolvendo as preferências alimentares”, frisou Michele.

Assim, as crianças também passaram a perceber o refeitório como um ambiente familiar e a entender a cultura em que ela está inserida: de comer em mesas, com colher, com companhias, desenvolvendo também uma convivência típica de nossa cultura.

Laços afetivos

Outra transformação significativa percebida pelas educadoras do Spes está relacionada com a socialização. Enquanto as profissionais responsáveis por cada uma das mesas com quatro crianças ajeitam o prato de comida de cada um e entoam cantigas infantis que incentivam à alimentação, os pequenos se mostram muito à vontade com o alimento e a integração com os amiguinhos é em clima de cumplicidade e respeito.

As mudanças na hora da refeição impactam também na evolução educacional. Além de aprimorarem noções motoras, de distância e a autonomia, os pequenos também têm ganhos secundários, como o desenvolvimento na hora de brincar. “A criança se arrisca e tenta mais vezes. Com os colegas, ela é mais centrada na hora de tocar o amigo, porque tem ideia do cuidado com o próximo”, explicou Michele.

“A evolução das crianças é excepcional. Na hora de comer, elas estão adequadas e livre para experimentar e assim é possível perceber rapidamente o desenvolvimento. Elas estão crescendo com mais afetividade, interatividade entre elas e com as educadoras também. Hoje a hora da refeição é mais prazerosa e as crianças vão crescendo mais felizes e carinhosas”, afirmou Geovana Barbosa, professora há 18 anos na entidade.

O contato com o mobiliário no refeitório também teve efeitos em casa. Segundo a orientadora pedagógica da Spes, vários pais relataram que após duas ou três semanas de uso das mesas e cadeiras especiais na escola, os filhos já não aceitavam mais a comida dada pelos familiares e preferiam comer sozinhas. “Os pais perceberam a mudança de hábito da criança em casa, aceitaram e aderiram ao novo olhar para a hora da alimentação, porque sentiram o progresso dos filhos e agora procuram dar continuidade ao trabalho que estamos desenvolvendo aqui na creche”, justificou Michele. “É como tirar uma venda dos olhos e a partir disso, o adulto começar a enxergar a criança como um ser capaz de fazer. É só darmos espaço a ela, “, concluiu.

* Sobre a Abordagem Pikler

Com o objetivo de acolher crianças que tinham sido separadas de seus pais durante a Segunda Guerra Mundial, a médica húngara Emmi Pikler (1902-1984) fundou um abrigo, na cidade de Budapeste, em 1946. Mais de 4 mil meninos e meninas passaram pelo Instituto Emmi Pikler-Lóczy e, ao acompanhar seus desenvolvimentos, constatou-se algo interessante: nenhuma delas detinha sinais de hospitalismo, como: apatia, falta de interesse pelo mundo exterior, atrasos no desenvolvimento afetivo, intelectual e/ou motor – que são naturais em casos de internamento prolongado em hospitais ou abrigos onde não é construído um vínculo afetivo. Ao contrário, as crianças do Instituto chamavam a atenção pelo desembaraço, segurança, alegria, confiança no adulto e bom desenvolvimento emocional.

Um ambiente que permita o desenvolvimento pleno das capacidades motoras e uma relação intersubjetiva estável e afetivamente rica entre o educador e a criança, são a justificativa para o resultado positivo visto anteriormente. Estes são os pilares que fundamentam a Abordagem Pikler e alia sabedoria e simplicidade.

Um dos mais importantes princípios da abordagem desenvolvida por Emmi Pikler é o de que o adulto deve estabelecer uma relação de confiança e interação com o bebê durante os principais cuidados (banho, troca de fraldas, alimentação). Além disso, o espaço é organizado para que o bebê possa se movimentar com mais liberdade desde muito cedo, o que proporciona maior autonomia (a criança conquista cada posição por si mesma na medida em que é capaz de manter sua postura) e melhor desenvolvimento motor. (Fontes: Rede Nacional da Primeira Infância; Anna Tardos).

** Saiba mais sobre Henry Wallon: http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/henri-wallon-307886.shtml

Feito para crianças 

O móvel destinado à refeição e pensado para envolver o desenvolvimento social, psíquico e cognitivo das crianças, é feito sob medida para os pequenos e pensado na noção do tamanho das crianças, para que tenham uma melhor dimensão de seu próprio tamanho.
Feito segundo padrões europeus – especialmente o alemão e o italiano – o mobiliário tem como matéria – prima a madeira, que é confortável e com densidade equilibrada para que as crianças não se machuquem. É usado um verniz orgânico e a madeira ainda proporciona para a criança aconchego térmico e estimula o toque dos pequenos. Sua durabilidade é de cerca de 30 anos.

O peso e o desenho das cadeiras também foi planejado para que com a movimentação dos pequenos, elas não tombem e assim, garantam total segurança. O assento fino e ergonômico permite que a criança se sente com a postura correta, e assim, a criança engole melhor e tem menos chance de engasgar. Os círculos vazados no encosto e nas laterais dos braços da cadeira também proporcionam mobilidade às crianças, que podem move-las com facilidade, garantindo o ir e vir. O recomendável é que se use os móveis apropriados para as refeições das crianças até os 6 anos de idade.

Brinquedos não estruturados desafiam a imaginação das crianças

Quando se chega na Associação dos Amigos da Criança (AMIC – Village) é comum encontrar os pequenos brincando, correndo, subindo em árvores e se divertindo com caixas, tecidos e outros materiais. Lá, os alunos carregam em suas mãos a imaginação, afinal a instituição acredita na utilização de brinquedos não estruturados, permitindo que um pedaço de madeira se transforme em uma casinha, um carrinho ou qualquer outro brinquedo.

Possibilitar o desenvolvimento da inteligência e dar oportunidade da criança explorar suas habilidades criativas é objetivo da AMIC – Village, entidade parceira da Fundação FEAC. Para as educadoras da instituição, quando brinca, a criança tem o poder de tomar decisões, expressar sentimentos, interagir consigo e com o colega e introduzir-se no mundo imaginário.

“Acreditamos que o brinquedo não estruturado desafia a imaginação e assim os pequenos aprendem a construir por meio da exploração dos materiais disponíveis”, explicou Amanda Verzaro, orientadora pedagógica.

Para a assessora técnica do Departamento de Educação da FEAC, Denilze Ricciardelli, durante os momentos de brincadeiras, ao se depararem com os materiais as crianças necessitam de encorajamento e tempo para pensar, explorar, criar e desenvolver habilidades que darão sentido à brincadeira.

“Enquanto as crianças estão engajadas na exploração dos materiais, o educador tem o papel de realizar intervenções que instiguem o pensamento infantil e favoreça a ampliação de possibilidades. Dessa forma, os alunos descobrem novas habilidades e as usam em suas criações e também na interação com outros amigos”, completou Denilze.

De acordo com a professora Silmara Regina dos Santos, o brinquedo que a criança enxerga permite estimular algumas funções cognitivas como a organização, o planejamento, a criatividade, a memória e a atenção. Além disso, também auxiliam na coordenação motora e socialização. “Também notamos que em muitas das brincadeiras, os pequenos usam o pensamento lógico e matemático, principalmente quando estão estruturando ou encaixando materiais”, exemplificou a educadora.

O brincar com os materiais não estruturados na AMIC Village vai na contramão de um modelo de educação que percebe o brincar como perda de tempo ou um instrumento para aquisição de conteúdos curriculares. “Esse modelo de educação também separa as crianças por faixas etárias, dificultando a interação e aprendizado que se dá quando crianças de idades diferentes interagem”, pontuou Denilze.

A AMIC defende que a integração entre diferentes faixas etárias só traz ganhos. “As crianças mais velhas acolhem os bebês de forma generosa, aprendendo que eles têm outro ritmo e outra forma de pensar. E os bebês aprendem com a linguagem dos maiores e suas formas de brincar”, garantiu a assessora.

Brinquedos não estruturados são materiais simples que permitem às crianças transformar objetos, oportunizando uma experiência nova e enriquecedora da brincadeira. Por não serem confeccionados com o intuito de serem brinquedos, os não estruturados são recursos flexíveis possíveis de serem encontrados no ambiente, e não possuem faixa etária específica ou prazo de validade.

Família na escola

A AMIC é uma instituição que está sempre de portas abertas. Os familiares participam de reuniões, palestras e sabem do dia a dia de seus filhos. “É interessante a proposta da AMIC. É diferente, mas acredito que proporciona mais liberdade para meu filho. Aqui eles brincam com qualquer coisa e vivem soltos, subindo em árvores, mexendo na terra. Eu gosto muito porque dá asas à imaginação”, concluiu a dona de casa Viviane Bonfim de Souza, mãe do pequeno Tiago, de 4 anos.

“Sempre que posso estou presente nas palestras que a AMIC oferece porque acabamos aprendendo coisas novas e ficamos informadas sobre o cuidado dispensado aos nossos filhos. A AMIC oferece coisas novas e meu filho adora. Logo ele irá crescer e terá que ir para outra escola, estudar o tempo todo. Então é bom que brinque e que aproveite essa liberdade e esse espaço”, completou a Lucimara Biajola, mãe de Eric, também de 4 anos.

Na AMIC Village, os brinquedos não estruturados são facilitadores do desenvolvimento saudável das crianças e a instituição incentiva a liberdade para descobertas. E desta forma, a brincadeira se torna o aprendizado.

Saiba mais sobre a AMIC: www.amic.org.br