Oficina de desenho: Histórias da Infância

“Como contar suas próprias histórias desenhando?” A pergunta é o ponto de partida das próximas oficinas para crianças de 5 a 11 anos. Serão três sessões por dia e as vagas são limitadas! As inscrições abrem no site do MASP, no sábado, 12/3.

As atividades de desenho antecipam a exposição “Histórias da infância”. A exibição reunirá obras que retrataram crianças e a ideia da infância ao longo dos séculos, no sentido social, cultural, político e artístico. A oficina de desenho, então, é uma provocação: por que as próprias crianças não contam suas histórias, no lugar dos adultos?

Oficina de desenho: Histórias da infância
Para crianças de 8 a 11 anos
Dia 31 de março e 1 de abril (quinta e sexta), das 15h às 17h

Inscrições a partir de 12.3.2016
Atividade gratuita. Vagas limitadas.
Oficina coordenada por Eliana Baroni, Lucas Oliveira e Miriam Lustosa

Mais informação: http://masp.art.br/masp2010/mediacaoeprogramaspublico_oficinadedesenho.php

Pequenas corrupções – o que as crianças aprendem com elas?

Incrivelmente, algumas pequenas corrupções são banalizadas e aceitas culturalmente como se fossem naturais. Mas se pararmos para pensar a linha é contínua entre uma pequena corrupção e uma grande corrupção e o que há por trás das duas são questões muito semelhantes. O que as crianças podem aprender quando observam essas situações?

Há alguns meses atrás a CGU – Controladoria Geral da União – lançou uma campanha chamada: “Pequenas Corrupções, diga não!” nas redes sociais e incrivelmente ela se viralizou.

É impressionante como as pessoas se indignam e concordam que é preciso combater todo tipo de corrupção, seja ela de que tamanho for, pois por trás há valores e princípios bastante semelhantes, sejam elas pequenas ou grandes.

Nos interessa chamar atenção aqui que ao conviverem com “pequenas corrupções” as crianças vão construir um repertório de informações que podem dirigir suas ações no dia a dia.

Assim, quando veem seus pais ou adultos de sua convivência furarem a fila do supermercado, a fila de uma escada rolante ou a fila de carros em um congestionamento entendem que levar vantagem sobre os outros, se achando esperto e ganhando tempo em detrimento do outro, é o mais importante.

Ou ainda quando ouve o garçom perguntar se a nota fiscal a ser emitida é do valor do gasto realizado, a criança pode entender que é possível mudar o valor e que isso é até sinal de educação e gentileza daquele que nos atende no restaurante.

Quando vivencia a compra de produtos falsificados, o sinal de TV a cabo clandestina, as compras sem notas fiscais para diminuir o custo em casa… isso tudo corrobora para que compreenda que o sistema certo é o errado e cada um precisa garantir para que possa ter – quase como um direito – algo que não avalia ser justo de se pagar.

Ensinar as crianças que elas podem não concordar com o que há disponível e têm de lutar legalmente contra elas pode ser mais complexo, mais demorado, mas acima de tudo, trata de valores, princípios e normas que regulam a convivência ética e isso é que pode fazer com que essas crianças vivam em um mundo melhor e possam continuar a melhorá-lo sempre.

Carinho é algo que se aprende

Uma criança aprende muito, a cada dia, desde seu nascimento. Mas será que também aprende a sentir e expressar emoções? Como?

Desde seu primeiro dia de vida, as crianças procuram entender o mundo a seu redor. Aos poucos, aprendem também a se comunicar. Em geral, em pouco tempo, as mães, os pais ou as pessoas responsáveis por cuidar do bebê conseguem descobrir se a razão do choro é resultado de fome, sono, dor ou o desejo de um colo. Daí em diante, conforme a criança cresce, suas possibilidades de comunicação por meio de gestos, de expressões e da fala, por exemplo, crescem igualmente.

Essas aprendizagens e tantas outras são frutos da interação com os adultos e da imitação. Mas será que a criança também aprende, desse mesmo modo, a expressar sentimentos, como o carinho?

Um vídeo que circula na internet pode nos ajudar a pensar sobre esse tema. O que está por trás da reação de uma menina pequena ao recepcionar de forma impressionante um amigo que havia faltado na escola por uma semana? As atitudes dela e de outros de seus colegas são emocionantes: eles correm ao encontro do garoto, o abraçam, o acariciam, dizem que estão felizes em vê-lo e com saudade. Vale a pena assistir!

Certamente, essa cena mostra muito para nós, adultos, não? As expressões de afeto, de carinho são também aprendidas por imitação. Na correria diária, por vezes, nós nos esquecemos de explicitar, em gestos e palavras, a importância que o outro tem para nós. Crianças aprendem com os adultos, o tempo todo, mas, às vezes, nós temos que aprender – ou relembrar – com elas!

Uma reflexão sobre a medicalização na infância

Têm se tornado cada vez mais comuns as prescrições de remédios psiquiátricos para crianças. São variados os motivos para a utilização de fármacos: agitação, agressividade, dificuldade de concentração, desobediência, timidez, oscilações de humor… Mas será que de fato esses comportamentos são sintomas? Ou será que são expressão da diversidade humana?

Em nossa sociedade, organizada em função da lógica de produção, torna-se banal encarar as particularidades individuais como um problema. Quando uma forma de agir ou de se expressar de alguém não combina com as expectativas do mundo do trabalho, encara-se isto como algo que precisa ser eliminado. Desta maneira, as relações vão se desumanizando, pois perdem sua característica humana mais essencial: a diversidade. A indústria farmacêutica beneficia-se disso, oferecendo soluções médicas para suprimir os indesejáveis efeitos da individualidade.

Sendo este nosso modelo social, não é surpreendente que isso esteja presente inclusive no dia-a-dia das crianças. Desta forma, muitas vezes, a família, a escola ou os especialistas (psiquiatras, psicólogos, fonoaudiólogos, etc., incapazes de lidar com a espontaneidade e o inesperado de suas crianças, optam por contornar essa indesejável situação transformando-a numa questão médica. Vale frisar que não falamos aqui de casos mais graves, nos quais a medicação pode ser de fato um auxiliar importante no tratamento, mas sim da banalização deste tipo de intervenção.

É bastante preocupante o crescente número de diagnósticos realizados na infância e na adolescência, pois este é um momento da vida em que a identidade ainda está em formação, bem como o sistema neurológico. Ressaltar uma característica de uma criança e utilizá-la para rotular e para explicar outras particularidades suas é uma forma de condená-la à posição de doente. Identificá-la por um aspecto negativo favorecerá que ela se reconheça a partir dele e construa sua personalidade em função disso.

Além disso, os medicamentos psiquiátricos que são prescritos às crianças – muitas vezes de forma indiscriminada – possuem diversos efeitos colaterais e podem causar sérias alterações no desenvolvimento neurológico. A Ritalina e o Metilfenidato, por exemplo, presentes em medicamentos contra o Transtorno de Déficit de Atenção (TDAH), ao agirem sobre o Sistema Nervoso Central, podem levar a convulsões, alucinações, ansiedade e ao chamado “efeito zumbi”, uma apatia constante.

O uso de fármacos na infância ainda é questionável por muitas vezes impedir que a criança crie recursos próprios para lidar com suas dificuldades. Assim, um garoto ou garota que não consegue focar sua atenção, por exemplo, não exercitará e desenvolverá essa capacidade, dependendo de medicação para atingir um estado de concentração. Como desdobramento, outras competências podem sofrer prejuízos, uma vez que os aspectos cognitivos, intelectuais, afetivos e psíquicos estão constantemente interligados.

Tendo refletido sobre todos estes aspectos, perguntamos: será que esperamos que todas as crianças sigam um modelo de comportamento que idealizamos? Estamos, de fato, conseguindo lidar com a diversidade de modos de ser?

Projeto “Adeola”: valorização da descendência africana nas escolas

Já pensou se duas princesas africanas visitassem as escolas contando sobre a importância da herança africana na nossa cultura? Que impacto isso teria no imaginário das crianças sobre ser negro?

 A cultura
brasileira é
profundamente ligada
a influências
africanas. Isso
está presente
em nossa
língua,
nossa alimentação,
nossa música,
nossa tradição,
nosso corpo.
Apesar disso,
o legado
de quase
três séculos
de escravidão
deixou profundas
marcas em
nossa sociedade.
Entre elas,
a discriminação
racial e
o preconceito,
que ainda
provocam grandes
impactos no
cotidiano e
nas relações. Combater
essas situações
de violência
e intolerância
desde cedo
é absolutamente
fundamental para
transformar injustiças
e reduzir
o abismo
de desigualdade
de oportunidades
que existe
no Brasil.

 A Lei
10.639/03,
em vigor
desde 2003,
foi um
avanço nesse
sentido,
pois tornou
obrigatório o
ensino de
História e
Cultura Africana
e Afro-Brasileira
nas escolas.
Entretanto,
ela é
só um
dos passos
necessários para
combater o
preconceito e
valorizar as
contribuições da
herança africana.
Pensando nisso,
Denise Teófilo
e Raísa
Carvalho*,
cofundadoras do
NEGRRA (Núcleo
de Extensão
em Gênero,
Relações Raciais
e Arte)
na UFSCAR
(Universidade Federal
de São
Carlos),
criaram o
projeto “Adeola”,
voltado para
crianças de
5 a
12 anos.

 A proposta
do “Adeola”
é levar
para dentro
das escolas
duas princesas
africanas (representadas
por Denise
e Raísa).
Parentes de
ancestrais importantes
da história
da África
– como
a Rainha
Nzinga,
a Rainha
Lucy e
a primeira
mulher do
planeta,
um fóssil
de 3,
2 milhões
de anos
descoberto na
Etiópia –
as duas
princesas,
Kambo e
Funji,
utilizam brincos
mágicos que
permitem viajar
pelo tempo.
Assim,
as crianças
e educadores
são envolvidos
pelo enredo
de recortes
históricos desde
a Pangeia
até os
dias de
hoje,
como se
os estivessem
presenciando. A
contação é
acompanhada de
oficina de
turbantes,
adereço equivalente
à coroa
que indica
nobreza. Desta
forma,
todos podem
tornar-se reis
e rainhas.

 Em entrevista
à Revista
Fórum,
Denise compartilhou
um pouco
dos objetivos
do “Adeola”
e dos
resultados obtidos
até
agora: “A
proposta é
trazer representatividade
e empoderamento
para as
crianças negras,
além de
trazer conhecimento
a todos,
quebrando estereótipos
correlacionados com
o racismo,
no que
tange as
relações de
gênero e
raciais. Tivemos
ótimos resultados
com as
crianças,
elas se
encantam e
ficam curiosas
sobre como
é a
África,
sobre a
coroa,
sobre as
guerreiras,
sobre nossa
família”.

 Apesar
de toda
a riqueza
do projeto,
ele ainda
carece de
apoio e
financiadores para
ser implementado
de maneira
mais ampla.
A iniciativa
é extremamente
interessante,
pois permite
que as
crianças se
identifiquem diretamente
com os
personagens que
lhe são
apresentados. Além
disso,
embora as
princesas sejam
personagens inventados,
as informações
históricas são
fruto de
intensa pesquisa.

 Para quem
quer saber
mais,
Denise Teófilo
disponibiliza seu
e-mail: deniseoteofilo@gmail.com.

 *Denise Teófilo
(Princesa
Kambo): Denise
é empreendedora
social,
educadora,
contadora de
histórias e
graduanda em
ciências econômicas,
desenvolve em
seus trabalhos
aspectos que
tangem ao
gênero e
às relações
raciais. No
NEGRRA é
uma das
cofundadoras,
lá desenvolve
as artes
digitais para
as mídias
sociais,
pesquisa e
também é
cocriadora e
responsável pelo
desenvolvimento do
projeto Adeola,
que trata
de afrobetizar
crianças por
meio de
uma performance.

Raísa Carvalho
(Princesa
Funji): Envolvida
com a
negritude além
dos espaços
acadêmicos,
expõe e
explora sua
história e
a do
povo negro
como ferramenta
política. Graduanda
em Ciências
Biológicas –
Licenciatura,
trabalha com
Educação de
crianças e
adolescentes em
projetos de
Gênero e
Sexualidade,
integra o
NEGDS (Núcleo
de Estudo
de Gênero
e Diversidade
Sexual). É
cofundadora do
NEGRRA,
onde contribui
por meio
de pesquisas
para elaboração
de projetos
e ações
e criadora
responsável pelo
desenvolvimento do
projeto Adeola.

“Geração do Morro”: como ouvir as vozes das crianças na escola?

Como seria

se as
escolas pudessem
ter espaço
para acolher
as vozes
das crianças
em suas

propostas? De
que maneira
essas vozes
seriam ouvidas?
Como poderiam
gerar transformações?
O projeto
“Geração do
Morro” procurou
justamente encontrar

caminhos possíveis
para isso.

Criado ao longo
do ano
de 2013,
o trabalho
ocorreu em
uma Escola
Municipal de
Ensino Fundamental
(EMEF) situada
na Zona
Norte de
São Paulo.
O desenvolvimento
dessa proposta
aconteceu num
contexto de
estágio do
Curso de
Psicologia da
PUC-SP e

foi construído
pelas alunas
Isabel Santana
Gervitz e
Luíza Guimarães
Capucci,

sob supervisão
da professora
Luciana Szymanski.

Em conjunto

com a
comunidade escolar,
foi pensada
uma intervenção
que procurasse
dar voz

aos alunos,
de forma
que eles
pudessem livremente
expressar seus
pensamentos e

sentimentos a
respeito da
escola. A
intenção do
projeto era
tornar o
espaço escolar
um lugar
acolhedor,
no qual
os estudantes
se sentissem
reconhecidos.

Foram, então,

escolhidos para
a realização
da escuta
grupos de
cerca de
9 alunos
de 3os

e 4os
anos com
perfis distintos
em sala
de aula.
Essa foi
uma maneira
de procurar
ter uma
amostra do
grupo total.

Numa primeira etapa
da intervenção,
foram desenvolvidas
atividades que
visavam escutar
o que

os alunos
pensavam a
respeito da
escola. Isso
deu-se por
meio de
rodas de

conversa e
representações gráficas
em grupo.
Surgiram aí
expressões de

insatisfações e
questionamentos em
relação
rotina escolar.
Porém,
as falas

infantis são
geralmente cobertas
de elementos
lúdicos e
fantasiosos,
que traduzem
de modo
concreto necessidades
abstratas. Muitas
vezes os
adultos escutam
essas manifestações
de modo
literal,
por isso
foi importante
fazer uma

leitura mais
abrangente de
seus significados.

Com o

objetivo de
transformar as
ideias que
surgiram em
ações,
os alunos
foram convidados
a categorizar
algumas falas
em:

1) Expectativas

possíveis de
se tornarem
realidade;

2) Elementos

que já
estavam na
escola e
precisavam ser
melhor aproveitados;

3) Ideias

que ainda
não seriam
possíveis de
serem concretizadas.

Esta

atividade envolveu
uma profunda
reflexão sobre
a própria
postura e
expectativas frente
à escola,
bem como
uma compreensão
maior dos
processos necessários
para concretizar
aquilo que
aparecia como
desejo do
grupo.

Algumas das

falas eleitas
pelos grupos
de trabalho
como “possíveis
de acontecer”,
foram escolhidas
para serem
colocadas prática.
Cada grupo
de alunos
pôde então

construir soluções
a serem
usufruídas por
todo o
coletivo da
escola.

Um exemplo do
processo realizado
a partir
das falas
pode ser
observado
abaixo:

 

FALA DOS

ALUNOS: “Ter
aulas de
pebolim”

DISCUSSÃO: As
crianças falaram
que como
só havia
uma mesa
de pebolim
na escola,
sempre ocorriam
brigas por
conta das
pessoas que
não sabem
jogar e
desrespeitarem as

regras.
Sugeriram:

– Imprimir as

regras do
pebolim com
a professora
de informática
e afixar
perto da
mesa;

– Criar um

sistema de
rodízio de
salas para
que todos
possam um
usar o
pebolim;

– Ter algum

monitor ou
inspetor perto
para ajudar
a ter
menos brigas;

– Ter algum aluno
bom no
pebolim para
ensiná-los a
jogar ou
chamar convidados
para fazer

isso (como
disseram que
ocorreu com
o futebol
de botão).

SOLUÇÃO:

Pensou-se junto
com os
alunos sobre
as regras
do pebolim
e de
convivência para

esse momento
do recreio.
A partir
disso,
as regras
foram escritas
e afixadas
ao lado
da mesa.

CONSEQUÊNCIAS:

Os alunos
foram capazes
de organizar-se
para o
uso da
mesa de
pebolim no

recreio,
independentemente da
presença de
um adulto.
As brigas
diminuíram. Possivelmente,
as consequências
resultaram do
fato de
as regras
estarem visíveis
e acessíveis
a todos
e terem
sido fruto
de uma
discussão coletiva
que considerou
a viabilidade
de cumpri-las.

 

Neste

momento,
foi interessante
notar como
certas crianças
puderam se
colocar de

forma diferente
da qual
apareciam até
então no
grupo por
conta de
haver uma

maior gama
de técnicas
expressivas
disposição. Assim,
aquele que
não conseguia
organizar a
fala pôde
sentir-se potente
desenhando ou
aquele com

maior dificuldade
em respeitar
regras pôde
colocar-se no
lugar de
quem as
cria,

pensando no
coletivo. Isto
evidencia a
importância de
oportunizar situações
na escola
que ofereçam
diversas linguagens,
aumentando as
possibilidades de

escuta.

O encerramento do
trabalho aconteceu
com a
entrega de
uma história
em quadrinhos
a respeito
do processo
vivenciado pelos
alunos. A
história estava
em branco
e preto
e poderia

ser pintada
pelas crianças
da forma
como quisessem.
Dessa forma,
além de
ter um

registro do
projeto e
vê-lo por
inteiro,
cada um
poderia
sua maneira

contribuir com
o percurso.
Isso também
foi uma
forma de
manter ativo
o movimento
participativo iniciado
com a
intervenção.

É importante

ressaltar que
o trabalho
de escuta
dos alunos
não foi
desenvolvido sem

considerar todo
o contexto
escolar. Ou
seja,
foi desejável
a participação

contínua de
diretores,
coordenadores,
educadores e
demais envolvidos
no dia
a dia
da instituição.
Dessa maneira,
as transformações
puderam se
tornar mais

potentes e
proveitosas para
toda a
comunidade escolar.