Casinhas do Vale do Jequitinhonha

Sinopse do filme: Crianças do Vale do Jequitinhonha criam e recriam no seu imaginário a intimidade e a beleza da brincadeira de casinha. Buscar o terreno, limpar, construir, enfeitar com flores e arrumar a casa. Depois é só ascender o fogo, cozinhar e provar! Qualquer semelhança com a brincadeira da sua casa, não é mera coincidência, é o brincar que se manifesta universal.

Com crianças
da Comunidade
de Córrego
da Velha
Debaixo –
MG Agradecimentos

Casinha de
Cultura –
Córrego da
Velha Debaixo

Roquinho Sandra
Eckschmidt Sr.
Paulo Maricota

O ECA e o Direito de Brincar

Várias pesquisas têm demonstrado que brincar reúne todas as condições necessárias para que o desenvolvimento infantil se processe de maneira harmoniosa. A oferta de permanentes desafios e contatos facilita a formação de vínculos positivos com os adultos, que irão influenciar sua vida futura.

 A legislação brasileira reconhece explicitamente o direito de brincar, tanto na Constituição Federal (1988), Artigo 227, quanto no Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (1990), Artigos 4º e 16, mas ainda não oferece as condições para que esse direito seja exercido plenamente por todas as crianças. Outros direitos e princípios do ECA guardam direta relação com o brincar, dentre os quais destacamos, direito ao lazer (art. 4º), direito à liberdade e à participação (art. 16), peculiar condição de pessoa em desenvolvimento (art. 71).

A importância do brincar já foi reconhecida, também, em diversos documentos legais internacionais e nacionais, dos quais destacamos a Convenção dos Direitos da Criança – CDC, no Art. 31. No Brasil existem várias organizações que defendem o direito de brincar, entre elas a IPA Brasil, que compõe a Rede Nacional Primeira Infância ao lado de outras congêneres.

Mudanças profundas nos ambientes urbanos em que as crianças estão crescendo estão tendo um impacto importante sobre a sua oportunidade de brincar. A população urbana está aumentando, assim como a presença da violência em todas as suas formas: em casa, nas escolas, nos meios de comunicação e nas ruas que, ao lado da comercialização das oportunidades para brincar, influenciam negativamente as formas de envolvimento das crianças em recreação, bem como nas atividades culturais e artísticas. Além disso, o papel crescente das comunicações eletrônicas e as crescentes demandas educacionais estão afetando de forma significativa o direito de brincar, principalmente na primeira infância.

As crianças que vivem em situações vulneráveis ficam muito mais expostas às situações de risco que as impedem de participar e de desfrutar dos direitos contidos no Artigo 31 como: direito ao brincar, ao lazer, ao descanso, à cultura, às artes e à convivência com seus pares, participando ativamente da vida comunitária do seu entorno. Para muitas crianças, o trabalho infantil, o trabalho doméstico ou as excessivas demandas educacionais servem para reduzir o tempo disponível para o gozo desses direitos.

Apesar de constituírem um avanço, as atividades lúdicas, do brincar livre, do brincar pelo prazer de brincar, ainda não merecem a devida importância por parte dos diferentes atores que compõem o cenário social: gestores públicos, educadores, líderes comunitários, pais e familiares. Por diferentes razões o tempo gasto com o lazer e o brincar ainda são considerados por muitos setores da nossa sociedade, como tempo perdido e as pessoas que dele fazem uso, como pouco produtivas, superficiais, quando não, irresponsáveis. Para oferecer as condições adequadas para que o brincar aconteça, as cidades precisam criar espaços públicos para todos, propiciando a convivência entre diferentes grupos e idades. Além disso, o empoderamento dos moradores do entorno é fundamental para que esses espaços não se tornem espaços de disseminação das mais diversas formas de violência. Devem, então, ser locais cuidados e não, abandonados. Essa mudança de atitude decorre, sobretudo, da capacitação e comprometimento das pessoas, para que se apoderem positivamente dos locais de convívio.

Marilena Flores Martins, Assistente Social, consultora na área do brincar e do Desenvolvimento Social. Co-fundadora da IPA Brasil- Associação Brasileira pelo Direito de Brincar e à Cultura.(www.ipabrasil.org)

Inauguração do 1º espaço lúdico permanente do Erê Lab – Largo da Batata

O Erê Lab inaugura seu primeiro espaço público, gratuito e permanente na cidade de São Paulo. Localizado no Largo da Batata, mais precisamente na Praça das Araucárias, esse espaço múltiplo reúne cinco equipamentos de design inéditos, brasileiros, e que fazem da criança a protagonista no brincar livre.

Será oferecido um pic-nic na praça para que todos possam conhecer, se apropriar e brincar!

Parte deste espaço é fruto do “Concurso Batata Lab de Mobiliário Urbano Lúdico”, organizado pelo Instituto A Cidade Precisa de Você e patrocinado pelo IPIU (Instituto de Pesquisa e Inovação em Urbanismo), no qual o Erê Lab foi vencedor.

Com essa oportunidade decidiu-se desenvolver um espaço completo, autoral e inovador, seguindo normas de segurança e colocando de uma vez a bandeira da criança no território da cidade.

Seu filho já ralou o joelho hoje?

Num país onde mais de 30 milhões de pessoas saíram da miséria na última década, crescem as preocupações com alimentação, moradia, saúde e educação infantil. Em todas as classes sociais, os pequenos ganharam melhores condições de vida. Mas o Brasil parece estar deixando de lado outro direito fundamental dos pequenos, previsto no artigo 31 da Convenção dos Direitos da Criança da ONU – o de brincar.

E preocupados com o fato de que as crianças brasileiras, cada vez mais, brincam menos, especialistas fazem um alerta: o ato de brincar na rua é fundamental para a formação de valores. Uma infância sem brincadeiras livres, longe das telas de gadgets, videogames e celulares, pode reduzir as fases do desenvolvimento, produzir adultos precoces e, mais tarde, emocionalmente instáveis, que se comportam como crianças.

“Não ir à rua ralar o joelho, subir em árvore, passear em carrinhos de rolimã e outras brincadeiras livres faz uma grande falta no processo de socialização. A criança acaba não desenvolvendo o juízo moral, que ocorre naturalmente quando se organizam sozinhas em jogos ao ar livre, como esconde-esconde, pique e brincadeiras com bola”, opina Rosália Duarte, pesquisadora do Departamento de Educação da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro. “Existe o risco de estarmos criando uma geração de adultos mais egocêntricos, individualistas, com menor capacidade de trabalhar em equipe e personalidades morais menos sólidas e flexíveis”.

O desenvolvimento e os desafios sociais e econômicos trouxeram obstáculos ao ato de brincar nas grandes cidades, mais verticalizadas e violentas, sem tantos espaços públicos capazes de tornarem-se palco para brincadeiras. Pais e mãe enfrentam, ainda, uma carga maior de trabalho e precisam deixar os filhos ocupados e em lugar seguro.

A infância é passada por muitos entre muros. Além da escola, pequenos acabam cheios de atividades desde cedo, como aulas de balé, inglês e futebol. Se falta tempo para atividades lúdicas e ócio criativo, sobra excesso de informação. E problemas futuros, aponta a coordenadora de comunicação da organização não governamental IPA Brasil, Renata Proetti.

“A própria urbanização e a violência excessiva fazem com que os pais sintam a necessidade de proteger os filhos. Faltam espaços urbanos para as brincadeiras. E mesmo aquelas crianças que crescem em condomínios fechados perdem o direito de se aventurar na rua, que é onde a criança pode ter experiências lúdicas, aprender e testar limites. Crianças precisam cair, se ralar, se machucar. Mas, em vez disso, estão presas a um conteúdo didático carregado, onde os pais apostam no futuro promissor para os filhos a longo prazo. Eles viram pequenos adultos com rotina digna de altos executivos”, observa Renata.

Risco para a saúde

Criada no Reino Unido em 1961, a IPA (sigla em inglês para Associação Internacional para o Brincar) tenta capacitar pais, mães, voluntários e educadores para resgatar a importância das brincadeiras livres num mundo cada vez mais globalizado. Presente em mais de 50 países, a organização se preocupa com os efeitos sociais, psíquicos, cognitivos e de saúde da nova geração que cresce entre quatro paredes.

“Um efeito imediato que observamos nas crianças que não brincam livremente é físico. Essa criança se torna mais sedentária, se mexe pouco e desenvolve doenças precocemente, como obesidade, colesterol alto, estresse e ansiedade. Há ainda a erotização precoce, o amadurecimento precoce e o mergulho no consumismo. A longo prazo, os efeitos são mais preocupantes. A não socialização e não troca com o outro dificulta o desenvolvimento da empatia, da capacidade de se colocar no lugar do outro. Como a criança vai aprender isso sozinha, na tela de um computador?”, indaga Renata.

Para os pais, a saída é buscar o equilíbrio. Desde os 8 anos de idade, Carolina tem uma rotina tão ocupada quanto a de um adulto. Acorda às 5h30, vai para a escola, tem aulas de balé todos os dias e três vezes por semana pratica tênis de mesa. Hoje, aos 14, estuda muito para concluir o ensino fundamental e, quando chega em casa, está esgotada. Às vezes, conta a mãe dela, Alessandra Pereira, a menina sequer troca a roupa: desmaia de cansaço na cama e sonha com tempo livre nas férias. E Alessandra já faz planos de encaixar, no próximo ano, aulas de inglês na apertada agenda da filha.

“Ainda não sei com que tempo! Mas não me preocupo. O desgaste dela é físico, nunca psicológico. Ela foi uma criança normal e é uma pré-adolescente feliz. Gosta muito do que faz e tem excelentes notas na escola, como combinamos, para que todas as atividades pudessem ser mantidas. A interação com as colegas do balé, a atividade física, a disciplina que a dança exige não causam problemas. Ela convive com outras crianças”, conta a mãe.

Computador devem ser dosados

Tantas atividades, avalia a professora Rosália Duarte, sugerem que as crianças estão sendo mais bem tratadas e têm mais oportunidades. Mas é preciso ficar atento para a relação cada vez mais estreita dos pequenos com a tecnologia, de modo a impedir o isolamento e permitir a socialização.

Os pais não devem ceder à dependência de brinquedos e produtos tecnológicos que acabam comprando para os filhos pelo marketing – e não pela consciência de que são, de fato, adequados ao desenvolvimento infantil. Smartphones, videogames e computadores, diz a especialista, devem ser aliados da educação, não responsáveis por ela.

“O grande risco é a brincadeira individualizada na frente da tela. É o mesmo debate surgido quando a TV invadiu 98% dos lares no Brasil, foi preciso dosar para que as crianças não passassem o dia em frente à tela. A solução é estabelecer limites para o uso das máquinas. Não há uma fórmula exata, de permitir uma ou duas horas por dia. Vale o bom senso. Se a criança precisa fazer o dever de casa no computador, ela pode terminar no tempo dela e, depois, usar a máquina para se divertir um pouco”, afirma Rosália.

E completa:

“Esse tempo depende do que a criança estiver fazendo. A chave é diversificar as atividades. Ela precisa usar a máquina, fazer o dever, brincar com os irmãos e amiguinhos, ligar para os avós ou fazer outras atividades. Ela precisa se socializar.”

Veja a matérias original: http://www.dw.com/pt/seu-filho-já-ralou-o-joelho-hoje/a-18921255

Documentário Brincantes

Quando soa o sinal, as crianças correm pelo pátio da escola em direção ao tempo que, para elas, é o mais precioso do dia: o recreio. Durante 20 minutos, distanciados do olhar dos adultos e com autonomia para decidir e protagonizar sua própria diversão, elas produzem regras de convivência e expressam sua criatividade inventando as suas brincadeiras. Dos jogos de mãos às coreografias improvisadas, da mãe polenta ao polícia e ladrão, o recreio é o tempo em que as crianças produzem cultura não só pelo que assimilam na experiência com os adultos, mas sobretudo a partir das relações que estabelecem entre si, na intimidade dos grupos dos quais fazem parte.

Brincantes é fruto de uma extensa pesquisa realizada em escolas da Rede Municipal de Ensino de Curitiba com crianças de 3 a 11 anos, durante os intervalos de recreio. Além de observar a prática das brincadeiras, este projeto dá voz às crianças e privilegia o seu argumento. Assim, o que se espera é que a comunidade escolar reconheça a si própria não apenas pelas suas normas ou pelo seu currículo oficial, mas também pela cultura produzida e experimentada cotidianamente pela sua comunidade, da qual as crianças são parte essencial.

O documentário Brincantes dura cerca de 25 minutos e foi lançado em abril de 2010 na Cinemateca – Curitiba. Teve sua exibição nos Festivais: IGUACINE 2010 — 3o Festival de Cinema da cidade de Nova Iguaçu (Nova Iguaçu-RJ) e 14O FAM 2010 — Florianópolis Audiovisual Mercosul (Florianópolis-SC). Também no ano de 2010, foi agraciado com a Menção Honrosa pela Associação Brasileira de Antropologia. O filme participou do VIII Concurso Pierre Verger de Vídeo Etnográfico de 2010, realizado em Belém-PA, durante a 27ª Reunião Brasileira de Antropologia, com o tema geral “Brasil Plural: Conhecimentos, Saberes Tradicionais e Direitos à Diversidade”.

O imaginário e o brincar das crianças

Segundo episódio da Websérie “O imaginário e o brincar das crianças” – Um passeio pela alma das crianças com Gandhy Piorski. Artista plástico,
teólogo e
um dos
maiores pesquisadores
da infância
e do
lúdico na
cultura popular
brasileira,
Gandhy nos
leva a
escutar as
sutilezas do
cosmo entoadas
a cada
gesto do
brincar.
Série dividida
em quatro
partes produzida
por MOVA
Filmes.  

Palestra: O diálogo e a mobilização de atores pela infância

O Mapa da Infância Brasileira (MIB) promoveu dia 12 de novembro, na sede do Instituto Alana, o 2º Encontro de Especialistas, reunindo diversos atores cujos trabalhos são voltados à infância. Anna Helena Altenfelder, superintendente do CENPEC, inspirou o grupo, tecendo reflexões sobre o desafio dos atores diversos dialogarem e se mobilizarem de forma colaborativa pelas crianças brasileiras.

A democracia nasce para todos (e a ditadura também)

Acossados pelo geral Francisco Franco durante 36 anos (1938-1975), artistas espanhóis reagiram às sombras e ao isolamento. Muita gente, como Federico García Lorca, foi calada sob o grito dos fuzis, mas respostas como a de Picasso, com o mural Guernica, e de Miró com as litografias da Série Barcelona marcaram com ferro quente os primeiros passos da longa ditadura.

O franquismo, porém, só foi ruir institucionalmente com a morte de seu líder em 20 de novembro de 1975. A transição à democracia, que aconteceria em seguida, foi bastante atribulada. Juan Carlos I foi proclamado rei e o alto escalão ligado ao general comandou os passos até a realização das primeiras eleições, em 1977 (com vitória do UCD, partido de maioria franquista) e da elaboração da Constituição Espanhola de 1978.

Foi durante esse período conturbado, entre 1977 e 1978, com o país em ebulição, que uma pequena editora de Barcelona, La Gaya Ciencia, lançou a série Libros para Mañana (Livros para o Amanhã), composta por quatro obras informativas para crianças sobre sistemas políticos, classes e gênero.

Os dois primeiros, A Ditadura É Assim (texto de Equipo Plantel e ilustras de Mikel Casal) e A Democracia Pode Ser Assim (texto também de Equipo Plantel e ilustras de Marta Pina), chegam às livrarias brasileiras como aposta da Boitatá, novo selo infantojuvenil da Boitempo Editorial. A tradução e edição das obras é de Thaisa Burani.

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A história por trás da série é fascinante.

A editora La Gaya Ciencia não existe mais. Os livros, fora de catálogo, foram resgatados em um sebo e republicados pela pequena e arrojada Media Vaca, com sede em Valência, que tem no catálogo ilustradores aclamados, como Arnal Ballester e o brasileiro Eloar Guazzeli.

A escolha da Media Vaca não veio por acaso: quarenta anos após a morte de Franco, o modelo da transição espanhola da ditadura à democracia ainda é tema de discussões. Pois a escolha da Boitatá caminha na mesma direção: 30 anos após o fim da ditadura brasileira, há quem ainda peça nas ruas a volta dos militares ao poder.

O texto, que continua atual, é direto quando tem de ser e poético quando consegue. Para conversar, as escolhas estéticas são bastante elegantes (vamos falar delas mais adiante). A combinação é rara no campo da política para crianças, tema até recentemente afogado por opções caretas – salvo boas e poucas exceções.

“Conversamos com educadores e eles sentem falta de material de apoio em sala de aula”, contou Thaisa, editora da Boitatá, ao Estúdio Voador. “E isso é uma coisa que a Boitempo sabe fazer.”

O foco do selo, que deve ir além de informativos e paradidáticos, cai sobre questões sociais e de representatividade, gênero e classes, sem perder o olhar para a literatura para crianças. “Queremos transmitir valores, falar de pautas políticas, sociais, cotidianas”, acrescentou.

O selo espera lançar os outros dois títulos da série, O que são classes sociais? e As mulheres e os homens no início de 2016, além de outros cinco livros durante o ano.

A Ditadura É Assim

O resultado mais visível do primeiro lançamento da Boitatá é que agora dá para brincar de procurar duas figurinhas brasileiras – Médici e Geisel – na ótima galeria de ditadores que ilustra as guardas do livro. Eles estão ao lado de Videla, Stálin, Pol Pot, Mussolini, Hitler e do próprio Francisco Franco.

Quer brincar também? Encontre Médici na imagem abaixo.

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Médici e Geisel não figuravam na edição original, claro. Quando o livro foi publicado na Espanha, Geisel ainda estava no poder. Por isso, o ilustrador Mikel Casal atualizou a galeria especialmente para a edição brasileira. Amostra do cuidado com a atualização da obra.

Os retratos dos ditadores dão o tom da qualidade das escolhas visuais do livro. Personagens achatados, ironicos, sem profundidade, formados por figuras geométricas e restritos em espaços de figuras geométricas. Setas, triângulos, círculos, quadrados, quadrados e quadrados dão sensação de clausura em cores pesadas.

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O texto é de um coletivo multidisciplinar chamado Equipo Plantel. Há raríssimas informações sobre quem eles eram, mas a atualidade do material – uma narrativa de início, meio e fim de uma ditadura – pretende mais do que apenas ensinar.

Como ela toma a trajetória de um ditador como exemplo, ela instiga novas perguntas. E deixa um caminho aberto: com o fim da ditadura, a trilha para a liberdade está aberta. Mas que liberdade é essa? É o que o livro número 1 da série tenta responder.

A Democracia Pode Ser Assim

Substituição no time dos ilustradores. Saem os traços duros e irônicos de Mikel, entram as colagens da espanhola Marta Pina, com forte pegada dadaísta. Nada melhor para um livro sobre democracia, em que as regras existem (até mesmo o dadaísmo tinha regras) e a liberdade ainda é limitada (assim como as possibilidades que a técnica permite).

Vale ressaltar que Pina não foi a responsável pela ilustração original do livro, mas escolha da editora Media Vaca para refazê-lo.

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Mais uma vez, o cuidado da edição com as guardas do livro chama a atenção. As fotos das crianças, que representam o futuro pós-ditadura, são de filhos de funcionários da editora e de leitores. Boa solução para substituir as fotos de crianças espanholas do original, que não tinham a mesma diversidade do público brasileiro.

Voltando à ilustração, Pina se esmera em trabalhar com imagens das primeiras décadas no século 20, que dão ao livro um tom nostálgico. A tecnologia aparece em forma de foguetes espaciais, televisores antigos, carros das décadas de 1960 e 1970 que devem ter saído de edições da Mecânica Popular e pessoas, muitas pessoas bem vestidas, entre imagens coloridas e em preto e branco, que parecem realizar sonhos a todo momento.

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O texto, aqui, é um pouco mais sisudo em relação ao livro sobre a ditadura. Os autores não elegem um personagem ou trabalham com uma proposta temporal de começo, meio e fim. As linhas são descritivas, equilibrada entre prós e contras, erros e acertos. Soa como um manual introdutório sobre democracia, com a grande vantagem de ter um claro valor artístico. As colagens complementam os textos com bom humor. E são de encher os olhos.

Dois pontos extras para os livros: a adição de uma série de perguntas sobre a leitura ao final de cada livro e de dois textos de Ruy Braga e Leandro Konder, autores da Boitempo, como complemento às edições originais. Ótima proposição para instigar debates futuros.

Pois então. Vamos falar com as crianças sobre democracia e ditadura?

E também sobre colagens e ilustrações, ditadores e representatividade, texto e narrativa, e tantas coisas mais que os livros possibilitam?

Veja o texto original em Estúdio Voador: http://www.estudiovoador.com/blog/../wp-content/uploads/2017/06/7/ditadura-democracia