Seu Google, nós existimos

– Mãe, estou fazendo um mapa da nossa comunidade porque não existe nenhum – disse Sikha, uma menina de 12 anos e olhos muito vivos de uma favela de Calcutá, na Índia.

– Mas tem mapa de todos os lugares, deve ter um daqui também – disse a mãe.

– Não tem – Sikha respondeu.

– Você tem certeza?

– Procuramos no Google e não conseguimos encontrar um mapa da nossa comunidade.

Ao buscar o Google Maps para se enxergar nele, as crianças descobriram que não estavam lá. No lugar onde viviam suas vidas, suas dores, seus sonhos, suas fomes e suas faltas, onde dançavam e choravam, nasciam e morriam, havia só um vazio – um grande nada.

Sua luta para existir – também no mapa – é contada no premiado documentário The revolutionary optimists (Os otimistas revolucionários), de Nicole Newnham e Maren Grainger-Monsen, filmado ao longo de três anos e meio. Com a ajuda do empreendedor social Amlan Ganguly, Sikha e outras crianças desenharam seu mapa. Ao forjar sua inscrição na geografia do mundo, mudaram destinos e salvaram vidas.

O mundo, como Sikha tão bem percebeu, é dividido entre os que estão no mapa – e aqueles que não estão. Não é esquecimento, não é acaso. É violência. Uma violência original – a invisibilidade – que gera todas as outras. Nem os mapas, ou muito menos os mapas, são inocentes. Na Índia, em toda parte. E também aqui.

Era um grande vazio de gente o que os “descobridores” enxergavam ao avistar a terra que chamariam de América. Era um vazio o que se batizaria de “Brasil” no olhar dos portugueses que aportaram aqui. E, mesmo havendo centenas de povos habitando o mapa, foi vazio o que continuaram enxergando enquanto o sangue era derramado e penetrava a topografia. E de novo foi vazio o que a ditadura militar viu ao lançar sua política para a Amazônia, nos anos 70, perfurando-a com o slogan “Terra sem homens para homens sem terra”, matando primeiro numa frase, depois a tiros, aqueles que não poderiam continuar no mapa. Ainda é vazio o que os grandes grileiros de terra tentam convencer os outros que veem, para que então possam se apossar de vastas porções habitadas do território e dizer que não há nada lá. Agora mesmo é vazio o que o governo federal diz ver quando condena povos indígenas, quilombolas, extrativistas e ribeirinhos ao construir as hidrelétricas amazônicas, trocando a frase obscena da ditadura por outra, mais vaga, mas não menos terrível: “Não serão afetados”. O único jeito de não ser “afetados” é não existir. Assim como só foi possível expulsar as comunidades pobres que estavam no caminho das grandes obras da Copa nas capitais enxergando-as como vazio – e não como uma geografia humana e amorosa em que brasileiros que também jogam suas peladas de futebol esculpem suas vidas duramente dia após dia.

As crianças das favelas de Calcutá lembraram ao mundo essa violência que atravessa a história – os sem-mapa. A que o Google Maps deu uma atualidade quase hiper-real. Elas descobriram num clique que não estavam lá. Mas como não estavam lá? O que eram suas vidas para aqueles que não as reconheciam lá? Eram invisíveis, então? Por quê? Se no mapa de quem manda no mundo eram vazio, eram um nada, então decidiram mapear-se, contrapor seu olhar ao não olhar que os varria da história. O que outros têm travado no campo da política e até mesmo no campo da guerra, os pequenos favelados enfrentaram com papel e caneta colorida.

Para fazer o mapa perceberam que precisavam se tornar seus próprios descobridores. Tão importante quanto enxergar o que estava ali era enxergar também o que não estava. E por que não estava? “Que problemas você vê aqui? Por que você acha que nós não temos água potável?”, pergunta a uma vizinha Salim, o menino que acorda as quatro horas da manhã e percorre três quilômetros para conseguir água, como fazem as 884 milhões de pessoas no mundo que a cada dia enfrentam o desafio de encontrar água para beber.

As crianças de Calcutá desenharam as ruas, desenharam cada casa, deram a cada uma um número, para que pudessem ser encontradas. “Para ser honesto, às vezes a gente cometia erros e perdia uma casa ou outra”, disse um dos meninos. Conseguiram, então, com o apoio da Universidade Columbia, celulares com GPS. E passaram a fotografar e a localizar casas e pessoas com o auxílio da tecnologia. Colocaram-se no mapa. E, graças a essa façanha, pela primeira vez uma campanha de vacinação contra a poliomielite atingiu 80% de cobertura na comunidade. (Assista a um vídeo imperdível de quatro minutos aqui. Ainda que as legendas sejam em inglês, dá para escutar muita coisa.)

Se era possível mudar o mapa, como não seria possível mudar a vida? “Como uma menina, eu sempre disse que as coisas aconteciam porque era destino”, diz uma das crianças. “Mas são as coisas que eu faço que determinam meu destino, não a sorte. Então, precisamos esquecer do destino e seguir em frente.” Uma frase poderosa na boca de uma garota de uma favela de Calcutá, já que 47% das meninas indianas são casadas antes dos 18 anos, e menos da metade chega a se matricular no equivalente ao ensino médio. Uma frase poderosa na boca de qualquer menina, em qualquer lugar. Sikha tenta dissuadir as meninas de se casar cedo e luta para que possam jogar futebol. Quer ser advogada ou jornalista. Ao entrar no mapa, ingressou também no território das possibilidades.

As crianças das favelas de Calcutá seguiram em frente. Ao desenhar os contornos da sua geografia, perceberam que era preciso embrenhar-se ainda mais. Tinham de detectar o que devia e o que não devia estar no mapa. Malária, não devia. Diarreia, não devia. Dança, sim. Descobriram que se apropriar do mapa do seu mundo torna possível mudá-lo. E agora, as crianças de Calcutá, os daredevils (“destemidos”), como se autodenominaram, estão no mapa. E passaram a influenciar o mundo para além do seu. Entre as inspirações do The revolutionary optimists, está o lançamento do Map your world (Mapeie seu mundo), que coloca o poder das novas tecnologias nas mãos de agentes de mudança em lugares pobres do planeta.

Ainda que o primeiro passo seja reconhecer e esquadrinhar seu território, como nos mostraram Sikha e Salim, acabar a tarefa por aí seria ainda permanecer passivo, como eles também nos mostraram. É preciso ter a coragem de imaginar um mapa mais largo para conseguir chegar perto de eliminar a poliomielite ou incluir água potável nas casas. Quando moradores de rua distribuem seus pertences por uma casa invisível para a maioria, embaixo da ponte ou mesmo numa esquina, como se estivessem passando da cozinha ao quarto ou conversando na sala com um amigo, evoluem por seu próprio mapa, ainda que ninguém possa ver. Antes de existirem, os mapas são sonhados.

É também a capacidade de imaginar um mapa, de fora e de dentro, que nos define, já que a primeira cartografia de cada um é o corpo. Depois, a casa onde evoluímos em nossa geografia íntima. É triste que os mapas de nossas vidas estejam cada vez mais restritos, mais tacanhos, cheios de barreiras e de senhas, ao refletir esse mundo que vai se apequenando pelo medo do mundo de quase todos os outros. Cada vez mais nosso mapa inclui menos gente, restrito aos interesses territoriais da família ou nem isso, e acaba na porta da rua. Os muros que erguemos internamente deveriam nos escandalizar tanto quanto aqueles que separavam – e separam – os povos no embate da história. Os muitos muros fincados na forma de vidros escuros, portas gradeadas, cercas eletrificadas, as concretas e as subjetivas, são um aviso também de que não reconhecemos todos os outros como parte do nosso mapa. E de que para nós é mais natural desejar um pequeno lago individual que um rio que mata a sede de muitas aldeias. Ao contrário das crianças das favelas de Calcutá, temos sido maus construtores de pontes.

Sikha e Salim só conseguiram se colocar no mapa do mundo porque derrubaram primeiro as barreiras internas e petrificadas por séculos de opressão, que determinavam o que cada um deles podia ser ou realizar. “Agora está na minha cabeça que posso fazer mais pela minha comunidade”, diz uma das crianças. “E quem sabe eu coloque na sua cabeça que você também pode.”

Os “destemidos” das favelas de Calcutá não apenas desafiaram o Google e se colocaram no mapa a partir do seu próprio olhar. Também desenharam-se sem fronteiras e só por isso nos alcançam aqui, em toda parte, incluindo-nos em seu mapa afetivo. Esses meninos e meninas sem água potável para beber foram capazes de tornar o mundo maior – também para nós.

Fonte: http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/eliane-brum/noticia/2013/07/seu-bgoogleb-nos-existimos.htm

PicNic Boa Praça

Dia 30/8 tem piquenique! Vai ser na praça Amadeu Decome, que o Movimento Boa Praça está tentando reformar. Serão construidos bancos e balanços, vai ter cama elástica para as crianças. O evento está dentro da programação da Virada Sustentável.

Quer aprender a fazer lindas bonequinhas de pano? Elas se chamam abayomis, que significa “encontro precioso” em Yorubá. Reaproveitando malhas, panos, cordões e fitas coloridas, sem o uso de cola ou costura, apenas com amarrações, nós e cortes é possível confeccioná-las. Durante o piquenique do Movimento Boa Praça, a artista plástica e africanista Surama Caggiano estará na praça Amadeu Decome dando uma oficina e contando a origem e história das bonecas.
Basta trazer os panos, fitas ou cordões que estiverem sobrando em casa e uma tesoura!

Feira de Troca de Brinquedos na Virada Sustentável

A Feira de Trocas de Brinquedos é mais do que um momento em que as crianças trocam um brinquedo por outro.

Tudo começa em casa, quando pais e filhos escolhem juntos quais itens estão em bom estado e serão trocados por outros. Depois, na feira, os pequenos analisam o que há disponível e tomam a decisão de fazer a troca.

A feira é uma alternativa de lazer que envolve reflexões sobre o consumo e ainda possibilita que a criança dê um novo significado para os brinquedos.

Data:
29/08/15
Hora: 10h
às
13h
Local: Praça
Victor Civita
– Rua
Sumidouro,
580

Menina de 7 anos cria Quadrinhos sobre Cabelo Afro Mágico

Aos 7 anos, a americana Natalie McGriff, começou a ter problemas de auto-estima sobre sua capacidade de leitura e também pela textura de seu cabelo. Sua mãe Angie Nixon, uma verdadeira Pac Mãe, resolveu agir!

Juntas, elas criaram “The Adventures of Moxie Girl”, um quadrinho sobre uma garotinha que usa um shampoo mágico em seu cabelo afro todo colorido e se torna uma super-heroína. Com sua cabeleira incrível, Moxie Girl consegue deter monstros comedores de livros de destruírem a Biblioteca Pública de Jacksonville.

McGriff apresentou sua revista no festival de crowdfunding One Spark, e conseguiu arrecadar $16.423, 69, superando mais de 530 outros projetos concorrentes.

De acordo com o Instagram da Moxie Girl, a revista oficial foi publicada em Junho.

Leia a matéria original em: http://www.geledes.org.br/menina-de-7-anos-cria-quadrinhos-sobre-cabelo-afro-magico/#ixzz3k3Ec4ocM

Grom Social: uma rede social onde os adultos não entram

Aos 11 anos de idade, Zach Marks foi proibido pelo pai de utilizar redes sociais. Sua intenção era proteger o filho de conteúdo impróprio. Enquanto os colegas da escola possuíam contas nos mais diversos sites, o garoto não tinha permissão para acessar Facebook, Twitter, Instagram ou qualquer outra comunidade digital que fosse frequentada por adultos. A solução de Zach? Criar sua própria rede social.

Com a ajuda de um amigo da família e de um especialista em código de programação HTML, Zach começou a projetar uma rede voltada para crianças e adolescentes em 2012. Durante quatro meses, ele e sua diminuta equipe criaram gráficos, códigos e desenharam o que viria a se tornar o maior site exclusivo para o público jovem no mundo: o Grom Social.

Ao mostrar o primeiro resultado para os familiares – que não sabiam de nada até então –, Zach recebeu total apoio. O pai, que sempre teve receio com novas tecnologias, entrou com investimento financeiro, convertido na contratação de especialistas e em uma equipe maior. Assim, a rede começou a tomar forma e a se consolidar.

Funcionamento

O Grom Social é pensado para manter crianças e adolescentes, entre 5 e 16 anos, distantes de qualquer contato digital com maiores de idade. “Qualquer um pode, em tese, criar uma conta no Grom”, contou Zach ao Estado. “O acesso ao site, porém, é limitado. A criança precisa inserir o e-mail do responsável. Em seguida, os pais deverão entrar em contato com a nossa equipe para autorizar a entrada do filho na rede. E para isso, precisa telefonar, assinar um termo de compromisso ou pagar uma taxa com o cartão de crédito”, conta o criador do Grom Social. “Assim, o acesso à rede fica limitado e controlado por nós.”

Além disso, toda a interação no site possui um acompanhamento de professores e pedagogos treinados para notar e alertar sobre qualquer tipo de violação dos termos de uso.

Segundo Zach, a rede é um treinamento para migrar, aos 16 anos, para o Facebook. “Quando a criança não puder mais acessar o Grom, vai estar pronta para entrar em redes para adultos.”

Brasil

Recentemente, a rede atingiu 1 milhão de usuários e Zach decidiu, então, que deveria ampliar a marca para outros idiomas e culturas.
Escolheu o Brasil para ser o segundo país a receber oficialmente o Grom Social.

“A escolha pelo Brasil foi natural. O número de crianças brasileiras que utilizam redes sociais é enorme”, conta Zach. “E se você conversar com elas, verá que o desejo principal é entrar em um ambiente em que o pai não está. E os pais, por sua vez, desejam que os filhos estejam seguros na web.”

Atualmente com 14 anos, o garoto nascido na Flórida veio ao Brasil com toda a família para promover o site em português. Para isso, visitou uma escola particular de Mogi das Cruzes, em São Paulo, para testar a rede com algumas crianças e procurar “embaixadores”. Segundo Zach, estes iriam “receber materiais exclusivos e testar jogos, plataformas e apps do Grom Social antes do lançamento. Com isso, seria possível descobrir se determinado produto também funciona na cultura daqui.”

Apesar do esforço, a versão do Grom em português possui alguns problemas estruturais e que podem afastar possíveis usuários.
A tradução do site parece ter sido realizada em um programa automatizado, resultando em frases soltas e sem sentido. Outras expressões nem ao menos foram traduzidas, permanecendo em inglês, o que pode causar confusão em crianças que não falam a língua.
O procedimento de autorização dos pais é igual ao dos EUA, só que os brasileiros tem que ligar ou mandar seu termo de compromisso para aquele país, já que a empresa ainda não possui escritório no Brasil. A opção mais fácil para usuários daqui será mesmo o pagamento de US$1,99 com o cartão de crédito do pai.

Presente e futuro

Curiosamente, Zach se empenha hoje em aumentar a influência do Grom Social nas redes sociais “de adultos” – Facebook, Twitter, Instagram ou Pintrest. Além disso, está trabalhando em um game para smartphones.

Ao ser chamado de “o futuro Mark Zuckerberg” pela mídia americana, um brilho surge nos olhos do garoto e um sorriso surge em seu rosto. “Eu não sei se concordo, mas acho ótimo. Ele é um dos meus ídolos e espero, um dia, fazer algo com ele.”
Sobre os planos futuros do Grom, Zach prefere não comentar. Diz apenas que está “trabalhando na expansão da rede”. “O objetivo é levar o site para outras línguas e países, tornando-o ainda mais influente na cultura de crianças e jovens ao redor do mundo.”

Outras comunidades

Existem diversas outras comunidades online no Brasil voltadas exclusivamente às crianças e adolescentes. Mundo do Sítio e Club Penguin, por exemplo, oferecem jogos e uma interatividade limitada entre os usuários. Visando restringir a possibilidade de conversas, ambas as redes permitem apenas a utilização de frases pré-determinadas pela equipe responsável peas páginas, impossibilitando uma conversa livre entre os jovens.

O Fantage se diferencia ao permitir conversas sem restrições de frases e expressões. Todo o bate-papo, porém, é monitorado por uma equipe. Os usuários são banidos imediatamente da rede caso alguém pergunte nome real, idade, localização ou pratique bullying com outras crianças.

Alguns sites, porém, são menos restritos. É o caso de Neopets e Moshi Monsters, que possuem jogos e permitem a adoção de seres virtuais como bichinhos de estimação. A conversa entre usuários em ambas as redes é completamente livre de restrições. Há apenas algumas regras de utilização e um monitoramento esporádico sobre o que é dito nos fóruns e conversas reservadas.

Fonte: Blog Estadão: http://blogs.estadao.com.br/link/uma-rede-social-onde-os-adultos-nao-entram/

Encantador de jumentos

Entrar no mato para caçar jumento e apostar corrida no lombo do animal é diversão dos cabinhas, como os meninos são chamados no Cariri cearense. Na Serra do Zabelê, vilarejo da cidadezinha sertaneja de Nova Olinda (CE), os quintais se estendem pelas capoeiras (matas).

Por ali, há muitos jumentos sem dono, soltos também pelas beiras de estrada. Houve um tempo em que esses animais eram úteis para o homem sertanejo. “Hoje já tem moto para pegar água ou carregar carvão”, conta Normando Carlos Telles, o Dó, 12. “Jumento já foi caro, agora ninguém nem quer.”

Se sobram nas capoeiras, viram assunto dos cabinhas. O termo “cabinha” vem de “cabra” (ou “caba”, no falar sertanejo). Homem é “caba”, menino é “cabinha”. Lá pelo Zabelê tem gente que brinca que Dó é “encantador de jumentos”.

Ele tem um jumento chamado Butico, que pegou no mato ainda filhote. Conseguiu amansá-lo. Butico senta, deita, anda e corre com os comandos do menino. “Gosto mais quando o jumento dá pulos.”

Dó conta que sempre aposta corrida de jumento no Zabelê. Cada menino vai montado num animal, que pode ser o da família ou algum caçado no mato.

“Quem perde tem que voltar para casa puxando o jumento, não pode montar”, conta Dó. “Nunca perco uma corrida”, diz, todo orgulhoso. Quer dizer, quase nunca. Certa vez, o menino caiu do jumento e levou uma pisada. Ganhou uma cicatriz no rosto.

Sua mãe não quis mais saber do jumento, que foi solto no mato. Mas isso já tem algum tempo – e o jumento voltou para o dono.

Caçada na mata

Seguir os cabinhas (meninos) na caçada aos jumentos nas capoeiras (matas) é uma aventura e tanto. Sol a pino, eles andam ligeiro por quilômetros, procurando o animal em cantos onde tem água. Estão sempre de olho no chão. Algum rastro pode indicar se quem procura está frio ou quente. “Aqui passou uma cobra”, avisa Ju, apelido de José Carlos Telles Júnior, 10, irmão de Dó.

No caminho, os meninos vão colhendo várias frutinhas. Sabem o que podem ou não comer. “Essa aqui é a banana da raposa, bem docinha”, explica Ju. Mas nada de jumento aparecer naquele dia. Voltamos para casa a pé, assim como quem perde a corrida no Zabelê.

Texto originalmente publicado na série Quintais, no jornal Folha de S. Paulo.

Para a infância, o ambiente é meio

Pelos quintais Brasis afora, a relação da criança com a natureza não é de preservação. É de simbiose. Para as muitas infâncias brasileiras, o ambiente é meio. É o meio fundamental para o exercício de ser criança.

Em quintais de cidadezinhas mineiras onde os pequizeiros se espalham sem medo, meninos e meninas se perdem entre seus galhos. Do pequizeiro pulam para o jatobá em busca do fruto saboroso que tinge os dentes de verde. Quem passa desavisado por ali provavelmente nem avistará os meninos-galhos, tamanha é a simbiose entre árvore e criança.

São muitos os exemplos da árvore-brinquedo. As mangueiras dão a sombra para brincar de roda nos quintais. E, se coquinhos caem do pé, eles viram munição para uma guerrinha pelas ruas. Também caídas, as sementes de uma das espécies do jacarandá têm um formato de faquinha e vão parar nas brincadeiras de casinha das meninas.

A água, a terra, a areia, as sementes, os caroços, as folhas e as plantas também são matéria-prima usada nos brinquedos feitos pelas crianças, que os misturam com pneus, chinelos de borracha, tampas de achocolatados, aros de bicicleta e outros restos do cotidiano encontrados pelos quintais. A natureza e a vida dão a liga, são a essência para meninos e meninas se conectarem com o mundo à sua volta.

Quando essas crianças chegam às escolas, até naquelas das zonas rurais, o discurso do educador é de preservação, soando de modo dissonante da realidade da infância que vive a urgência do hoje – quem inventou essa história de que “criança é o amanhã”?.

Claro que a Terra requer ações conscientes que projetem o seu (nosso) futuro, mas as crianças deixam claro que a sintonia com o futuro tem que começar já, hoje. E de verdade. Não vale o professor apenas inventar uma oficina para fazer “coisas com garrafa PET” como se isso só fosse despertar um sentimento de cuidado com o planeta.

Acompanhada da jornalista Marlene Peret e do fotógrafo Samuel Macedo, parceiros do projeto Infâncias, vi algo parecido lá no Vale do Jequitinhonha. Nas ruas e nos quintais, as crianças vinham ávidas apresentar seus brinquedos feitos de natureza quando perguntadas sobre o assunto. Logo surgiam petecas de bananeira, pernas de pau, bodoques, papagaios de bambu.

No ambiente escolar, o mesmo chamado obtinha resultado muito diferente: os brinquedos não tinham a força da vida que nascia dos quintais. De certa forma, os brinquedos feitos na escola lembravam trabalhos das aulas de artes dadas à reprodução (sem espaço para a criação), anunciando que a escola estava desconectada da vida – da vida nos quintais.

Nesse diálogo com as crianças pelos quintais do Brasil, ficam muitas lições. Uma delas é que as crianças têm muito o que nos ensinar quando o assunto é natureza. Basta permitir que o ambiente seja de fato o meio para a infância.

* Texto originalmente publicado no Comkids Green – Relato e Reflexões, resultado de um encontro realizado no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, que discutiu as relações entre infância, audiovisual e meio ambiente e que teve a participação do projeto Infâncias (www.projetoinfancias.com.br)

O Quando da Natureza e do Brincar

Dedico este pequeno estudo ao Xinxa, menino que habita vivíssimo meu ancestro irmão Gianni Mastroianni.

A natureza não trata melhor o homem que suas demais obras: age em seu lugar onde ele ainda não pode agir por si mesmo como inteligência livre. Schiller                

Caro leitor,
             Convido-o a trilharmos um pequeno caminho de reflexão. Quero pedir-lhe a licença para juntos olvidarmos dimensões muito próprias à nossa interioridade, mas que muitas vezes aparentam viver num distante, lá fora, tão longe. Quero também preveni-lo de que este convite para um passeio nas coisas do íntimo, não será um passeio tão agradável se não tivermos a disposição do caminhante. Aquela em que o caminho, as coisas que nele vivem, as flores de sua beirada, os líquens e musgos de suas pedras é que inspiram a caminhada. Não é o fim do caminho, nem a moral de sua história, muito menos as benesses que, lá na chegada, nos aguardam. Mas sim todo o trajeto, cada passo, cada zumbido das pequenas asas que polinizam o mundo, cada cheiro que tempera o ar.
          Para que melhor caminhemos, por algumas possíveis e pequenas partes deste lugar, sem pretender chegar, para que nossos sentidos ampliem seus poros, melhor será vestir-nos de reminiscências mais próximas, vestir-nos de nossa infância. Assim nosso ouvir saberá melhor ecoar. Já experimentou isto, caro leitor? Já fizeste o ouvido ecoar? Como se dentro nada houvesse, nenhum móvel da razão, nenhum guarda-roupas da cognição, nenhuma gaveta da especialização. Casa vazia, ocada dos separatismos da razão. Apenas cheia, prenhe de imaginação. O som de cada palavra despertado, incorporado por imagens. O som como um éter, um espírito que lançado de um lado para outro encarna em cada imagem que vem surgindo do imaginar. Já viste essa acrobacia do íntimo se realizar? Raro, não? Será mesmo tão raro ou apenas deixamos de perceber, de em nós conscientizar?
          Pois bem, descubramos juntos se raro é. Entretanto, para que melhor nosso ouvir ecoe e possa mergulhar nos mais fundos campos de imagens que nos habitam, melhor é nossa infância aqui evocar. Mais seguro, para hoje, se faz caminharmos com nossa memória de criança, ou com a imaginação que hoje temos de quando criança um dia fomos. Combinemos assim: este texto lê-se a partir do lugar de quando criança. As imagens que evocarmos para compreendê-lo vem de quando criança somos ou fomos. Aliás, esta instância do quando serve para nos situarmos no tempo e absorvê-lo, esta ideia provém das camadas idiomáticas do mais fino manoelês (Barros, 2006). Só exaurimos o quando do tempo se estivermos incorporados de imaginar. Perceba bem: incorporados.
          Vejamos se esta tese tem fundamento para que não fique aqui eu, logo no início do texto, desacreditado por uma proposição sem raiz. Para isto evoco uma memória de infância: quando minha mãe fazia bolos por ocasião de nossos aniversários e os confeitava, eu amava o percurso de suas mãos! Admirava tanto suas mãos! Admirava tudo o que elas contornavam e desenhavam com o glacê colorido das anilinas! Ali a festa já começava!
          Pois bem, dito isto pergunto: quem de nós na infância não foi marcado pelo quando das mãos, dos pés, do corpo, dos gestos das palavras de alguém em algum lugar? Quando lembramos hoje, voltamos a este quando, a este tempo que vive e habita apenas o nosso imaginar, e tem um valor, uma qualidade, um conteúdo muito subjetivo, que é só nosso. Não é um tempo atrás, um conjunto de imagens frias guardadas numa caixa da memória, mas é um valor do tempo, nosso próprio ser no tempo, um sentimento da memória, uma imaginação que pode ser atualizada a todo instante. Uma reserva de alegria que podemos a qualquer hora acessar. Isto é, reserva de energia, força vital, combustível anímico que nos dá uma base importante e necessária para reconhecermos a nós mesmos e seguir.
          Citei um pequeno exemplo para falar dos registros conscientes de nossa memória. Existem também todos aqueles dos quais não lembramos, mas que estão registrados e que também compõem as bases do nosso ser desde o dia em que nascemos até hoje. Entretanto não para por aí. O que está dentro de nós não é apenas das experiências do nascimento para cá. Observemos bem as formulações que uma criança faz, a quantidade de imagens que é capaz de associar numa brincadeira à quantidade de ideias e de sentimentos. Todo este conteúdo não provém apenas de uma biografia de sete, seis, cinco ou quatro anos de idade. Mesmo com a enxurrada de imagens artificiais e informações inúteis (que as escolas, as indústrias e as mídias se empenham em produzir), as quais as crianças estão expostas, não haveria tempo para esta sofisticação formulativa. As crianças são capazes de fazer perguntas criacionais, cosmológicas, cosmogônicas. Perguntas que se enraízam em velhos cachos maduros de imaginação primordial, ancestros e muito anteriores à pequena experiência no mundo, à tenra idade.
          Num ambiente criativo, de paz estética e acolhimento imaginário, crianças crescem perguntando do mesmo modo que perguntaram os jônios e todos os pré-socráticos nas suas formulações cosmológicas. Criam imagens mitológicas para suas perguntas que são as mesmas perguntas originárias das grandes mitologias, das mais antigas histórias da criação. Sondam a natureza do sol e os mistérios da lua, a origem do homem e do mundo. Toda criança que tem a oportunidade e a paz para expressar seu ser é capaz de desenhar os contornos de uma teologia do mundo, de uma filosofia do homem e uma hermenêutica no seu brincar. Mas isto é outra conversa. Por agora sigamos com o conhecimento que habita a criança para além de sua biografia, de sua pouca idade.
          O mundo interno da criança é infinitamente mais amplo que o mundo externo. Sua imaginação tem uma capacidade plástica mais vigorosa que a imaginação do adulto. Os espaços podem ser remodelados com grande desenvoltura. Dentro de uma casa de bonecas em miniatura a criança habita uma sala enorme, um quarto cheio de móveis pequeninos onde ela distingue sua espacialidade com grande clareza. Guarda todos os pertences de suas bonecas nestes pequeninos lugares tão espaçosos. O mundo exterior torna-se imenso no interior da criança. Toda esta energia interna da criança, capaz de plasticizar o mundo e trazê-lo para dentro de si com imensidão, provém das forças imaginárias que nela habitam. Repito para que claro fique: são forças, potências de energia, vitalidade essencial que se faz orgânica, necessária para a formação do corpo da criança, de sua alma, de seus órgãos, de seus músculos. Imaginação, especialmente na criança, é força criadora.
          De onde vem toda esta energia? Por qual motivo as crianças são apossadas destas forças e acreditam com tanto fervor nos medos, nas alegrias, nos encantados do mundo? Só por serem tão inocentes e creditarem tudo ao dizer dos adultos? Ou é por não terem ainda o discernimento da razão que faz o mundo ficar “real”? O que é o real?
          Vamos por partes. Adentrando uma camada a mais, poderemos nos deter na observação da imaginação que nos habita hoje, agora. Consegues perceber caro leitor? Parece que a maior parte de nossa energia imaginária de hoje canaliza-se para realizar desejos sociais, materiais, sexuais. Tudo isto de maneira prática, rápida e indolor. Até os sonhos mais altruístas e mais idealizados que nos acompanham dizem respeito a um forte desejo pessoal, individual, privado. Os devaneios, íntimos companheiros de horas de trabalho prazeroso, ou de horas de solidão e calma, ou mesmo das horas de silêncio, estes devaneios andam angustiados, embaçados de pressa, enferrujados, pouco valorizados. Da solidão, do silêncio e do trabalho prazeroso não são muitos os que se aplicam e se dispõem a buscar suas virtudes e tê-las consigo, vivê-las nos seus dias. Fica tudo isto para a aposentadoria, este idílio cansado do homem ocidental.
          Agora vamos mais fundo, recuemos mais um pouco. Encontremos a imaginação que nos habitava quando criança. Há diferença entre esta imaginação de hoje e de quando éramos meninos e meninas? A resposta óbvia é sim. Mas não basta a velha e duvidosa frase: criança não tem preocupação. Posso enumerar as muitas preocupações que impõem às crianças hoje. Mas fico com apenas uma. A escola tem sido a mais dolorosa, angustiante e desvitalizante pré-ocupação de inúmeras crianças, especialmente aquelas mais dotadas de vida imaginária. Então esta resposta tão desprovida de sensibilidade para com as crianças não vale, é rude e descabida. Sigamos então. A diferença essencial entre quando imaginamos como um adulto para quando imaginávamos como criança – dentre muitos modos de compreender – pode-se, resumida e grosseiramente, dizer que está na quantidade de energia que brota da imaginação em cada uma destas épocas.
          A imaginação nasce na criança com uma capacidade estruturadora, construtora e originante. Como a eletricidade que as sementes contém na hora de sua germinação, potência de vida. Cumpri uma engenharia da natureza. É a predominante liga de sinergia entre a criança e a vida, pelo menos até os primeiros dez anos de idade. Permite que a comunidade habite a criança e a criança habite o mundo. Coze os costumes da sociedade em seus fios de encantamento. Cose o cru e duro mundo em grandes caldeirões de tantos sabores. Une o interior com o exterior. Desfaz o dentro em fora e o fora em dentro.
          Interior e exterior são desenhos espaciais da metafísica, são conceitos para investigar o ser, são fronteiras que o filósofo cria para apreender a experiência do ser individual e do ser do mundo. Dizem: no interior está o ser-aqui, no exterior o ser-aí ou outro ser, o ser do mundo, da natureza. Mas isto é a metafísica em suas investigações. Como diz Bachelard, é uma linguagem geométrica e cartográfica da ontologia (Bachelard, 2008). Entretanto – para melhor nos servir – como seria um estudo do ser se não fosse pelas noções de espaço, pelo dentro e fora, aqui e ali, interior e exterior? Bachelard conduz-nos a algumas bases para este estudo do ser a partir do reino imaginário. Propõe-nos compreender a imaginação a partir da luz e do som, do frio e do calor (Bachelard, 2008). Assim para investigar o ser não haveria mais o dentro e o fora, interior e exterior, mas a intimidade e a extroversão, a repercussão e a ressonância.
          Não cabe aqui enveredarmos por tão complexo problema. Esta pincelada foi para focarmos nossa lente, o prisma por onde enxergar. Espero, contudo, que não tenha é desfocado. Entretanto, isto será mais clarificado adiante. Assim, voltemos à criança. Por esta viver os inícios e a parte mais viva da manifestação imaginária, por ela estar em contato direto com as fontes de toda força imaginária inicial, seu ser embrionário está no útero do ser do mundo.
          Não é só o dentro de si, o separado. A imaginação faz com que a criança sinta o mundo como intimidade. Intima seu ser com o ser do mundo. Enlaça o mundo que em ressonância ecoa, repercute no ser da criança. Faz com que o ser da criança toque, conheça e absorva as estruturas mais recuadas da experiência humana. Assim a imaginação o faz não só na criança. Mas a infância tem seus privilégios imaginários. Este é um tempo da vida de monções e cheias, inundações imaginárias vigorosas. Águas que, mais tarde, na vazante, depositam nutrientes necessários, vitais nas margens do viver. Assim haverá terra fértil, mineralizada para o plantio. Uma lavoura imaginária de arcaicos nutrientes.

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Até aqui, se me fiz acompanhar, falei de nossas lembranças de quando criança. Falei também daquilo que não lembramos, mas que é parte de nós e nos deixou marcas. Ainda falei do que está para além de nossa biografia que é a imaginação. Esta fonte, este reino antigo pertencente à memória coletiva dos homens que se manifesta com conteúdos muito anteriores, além da pouca idade da criança. Ao falar da imaginação disse que ela se manifesta na infância com muito mais vigor, pois é também responsável por auxiliar nas forças formadoras do corpo e da alma da criança. É tão poderosa que por muito tempo não permite que existam fronteiras entre a criança e o mundo, entre o mundo e a criança.
          Bom, dito isto façamos apenas mais duas perguntas antes de içarmos nossas velas em novos ventos deste mar. De quais propriedades e conteúdos se compõe a imaginação? Quais as primeiras imagens que compuseram esta teia infinita que não para de laborar em todos nós? Esta teia de criações. Restringindo ao máximo as respostas, podemos dizer que estes conteúdos advêm dos primeiros contatos do homem com o mundo natural. Conteúdos que por muitas gerações foram sendo elaborados nos mitos, nas religiões, nos costumes, no trabalho e nas artes. As primeiras imagens, as mais profundas e duradouras vem do olhar do homem para a natureza, sua casa original. São imagens dos animais, das águas, do fogo, dos astros, da noite, do dia, da caverna, do monte, da árvore, da semente e tantas outras. Imagens estas, somadas, multiplicadas e amplificadas à experiência que a tudo isso gerou: a morte, a transitoriedade, o escoar do tempo.
          Assim Bachelard nos diz que a imaginação é um quarto reino da natureza (Bachelard, 2001). O reino imaginário contém em si os outros três reinos: animal, vegetal e mineral. Pois bem, chegamos aqui a uma parte muito especial de nossa caminhada. A confluência da criança com a natureza. A imaginação da criança em contato com a natureza. Quais repercussões este contato permite? A natureza é um lá fora para a criança?
          Brinquedos da flora, brinquedos da fauna, brinquedos minerais são assim reinos do brincar. Nestes reinos do brincar a imaginação é senhora soberana. Pois ela é o quarto reino que aos outros contém. Trás informações e imagens de grande conteúdo valorativo, pois são imagens oriundas da natureza acumuladas na experiência humana. Assim quando a criança vive o brincar neste universo material, quando faz das flores secas hélices de voo, do sabugo ou da palha do milho sua boneca, esta matéria imaginada pela criança repercute em reconhecimentos imaginários. Pois na imaginação há uma substancialidade, uma materialidade. Assim este encontro do material do brinquedo com a substância da imaginação amplifica o imaginar às longínquas ramificações. Trás valores deste quando vivido pelos homens do decorrer dos tempos. Sim, pois existe o nosso quando biográfico, mas existe também em nós o quando coletivo. A imaginação provém deste quando de todos. É um museu vivo de imagens de todos os tempos.

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          Isto não quer dizer que brincar com outros materiais não seja brincar. Mas brincar com os materiais naturais, nas árvores, na terra, com a água, com as folhas e cascas, as sementes e frutos aproxima a criança das impressões mais íntimas à imaginação. Aproxima a imaginação atual da criança dos arcaísmos imaginários carregados de significados e valorações. Permite maior contato com as fontes criadoras da poesia, do mito, dos sonhos.
          Maior mergulho imaginário uma criança terá se puder brincar numa choupana de galhos e folhas do que numa casinha toda especializada, pronta, definida, com todos os equipamentos de uma cozinha que fazem tudo só bastando apertar os botões. Na choupana a criança poderá com mais liberdade construir seu sonho aproximando-se das imagens arcaicas, do abrigo, da caça, dos assombros do mundo, do homem que engenha suas defesas e sobrevivência, do lenhador, da simplicidade original do ser. Tantas lições do humano e seus percursos abrigam um brincar de choupanas! Uma repercussão de enraizamento nos mais recuos dramas do homem.

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          Entretanto algo muito importante precisa ficar claro. Todo o trabalho da imaginação na criança busca organicizar e animizar o mundo. A criança com um pedaço de plástico infunde-lhe anima orgânica, vida. Pois a imaginação nasceu das imagens da natureza. Por isso a imaginação do brincar transforma toda a cultura em natureza, dá vida a tudo, até às mortes de bonecas. Mas com o tempo a cultura foi falsificando as matérias para o brincar da criança. Foi dando-lhe uma feição tão realista e de materiais tão científicos que as impressões imaginárias limitam-se ou perdem seu vigor nas fronteiras do pronto, respondido, detalhadamente representado. Ferramentas de plásticos tão leves que a graça de martelar um ferro perde sua consistência, sua repercussão, sua vontade imaginária.
          Assim algumas sucatas podem cumprir uma função de objetos naturais. Algumas. Mas antes de chegar à criança, necessitam ganhar organicidade, desmonte, diversidade para sair do significado agressivo e massificado do consumo, das embalagens de alimentos tão nocivos e altamente consumidos pelas crianças, dos materiais que produzem enorme lixo no ambiente e no corpo das crianças como as garrafas pet e seus líquidos.
          Contudo a reflexão mais importante está no brincar com a natureza. Estamos num tempo que nos exige mudanças de hábitos e padrões de comportamento. Se formos entrar nas flexibilizações permissivas damos um passo para frente e daqui a pouco estamos na mesma: sem tempo, o que deu pra fazer foi isso, vai com isso mesmo. As crianças demandam de nós inteireza, atitude, interesse pela vida. Cumpramos!
          Ofereçamos vida de verdade, contato real com o lugar de onde provém toda nossa vida: a natureza. Ou vamos acreditar que a imaginação das crianças se convence com o falseamento oferecido pelas escolas de brincar com uma mangueirinha com água uma vez por semana no pátio cimentado? Ou de brincar numa brinquedoteca com brinquedos todos sintéticos, num chão industrial ou num tapete morto, das cores histéricas do E.V.A.? Os pais, coitados, os que ainda não tem ouvido seus filhos, podem até se convencer! Mas as crianças não. Observe bem o sono destas crianças, a disposição física destes meninos, o eixo corporal, os desejos alimentares, o humor, o nível de envolvimento nas experiências propostas, a capacidade de ouvir. Observe bem!
          As crianças amam o chão. Este chão é afetivo, é familiar, é a saúde, é o ritmo, mas este chão também na mesma linha de grandeza dos anteriores é o chão da natureza, é terra, é árvore, é bosque, são os animais, os passarinhos e seus sonhos de liberdade. Assobio de passarinho para crianças é imaginação de vôo, é a fuga das geometrias do mundo adulto, escolar.
          Há ao certo a natureza na criança. Nós todos somos natureza. A imaginação é natureza. Mas há também uma cisão. Um desvão um desconhecimento e uma desconfiança se realmente somos e trazemos em nós a natureza. Assim nada melhor que uma homeopatia imaginária do brincar para encontrar no mundo natural os pares de nosso mundo imaginário. Permitir que o mundo natural, os brinquedos do ar, das plantas, do fogo, dos ossos, das pedras, das seivas e líquidos abram os campos de imagem afins às mais recuadas primícias da imaginação.
          Melhor digo se mostrar. Melhor mosto se despertar em ti, caro leitor, as tuas próprias memórias do brincar. Imagens do quando criança. Espero que alguns destes exemplos saibam o recordar. O dentro do mundo é um fascínio anatômico da criança. Ver o que tem dentro de tudo. A alma de tudo. Quebrar os brinquedos, desmontar os eletrônicos, furar a madeira, abrir um sapo para conhecer seus órgãos, ver o interior do peixe morto na beira do mar, conhecer seus ossos, deles fazer fazendinhas, esconder-se e aparecer, dar susto a partir de um esconderijo, amassar o barro, cavar buracos, desenterrar algo. O que está por trás de tudo subtende ser a vida de tudo.
          Isto fica claro quando a criança em vez de investigar o oculto, ela própria se faz o oculto. O que continua sendo uma investigação. Veja, lembre-se, de como todo o corpo da criança corporifica-se de uma eletricidade única quando ela se esconde para, em alguém, aplicar um susto. Corporifica-se de uma alegria, um viço corporal. Pois o oculto é o próprio viço, a própria vitalidade, o espírito, a substância de tudo. Ela quando se esconde corporifica estas impressões, atualiza o mistério em si própria, aquele mistério que tanto busca em quase todas as maneiras de brincar. Algumas até se assustam consigo próprias e com estes modos encantatórios de brincar. É da propriedade imaginária o oculto. Este é um dos seus principais canais de diálogo e união com o mundo.
          Assim, nenhum outro universo material pode dar estas impressões do brincar com tantas possibilidades investigativas e mergulhos imaginários como a natureza. Como a noite, as fogueiras, as histórias do escuro e do luar. O medo da caverna, ou das locas fundas das pedras da beira do mar. As pedrinhas tocadas uma na outra no fundo d’água fazem sons surdos e ao mesmo tempo profundos. Segredam-nos saudades escondidas, esperanças não vistas, e tamanha solidão dos mergulhos. Os armários de portas grandes (velhos troncos) são cavernas seguras com os cheiros das roupas – cheiro da pele – dos pais.
          Mas não só o que está escondido, o não visto, é repercussão de marcas, propiciadas com riqueza e intimidade pelo mundo natural, na alma da criança. A superfície, a pele da natureza cria um mimetismo do belo na corporeidade da criança. Mimetismo aqui não como imitação, mas como apreensão das impressões do belo. Os enfeites dos pássaros, suas penas coloridas, a pele lodosa dos peixes, as escamas da serpente e a pele das flores. Os pássaros, peixes e serpentes as crianças contemplam, surpreendem-se com sua presença, com seus prateados e dourados. Já a pele das flores serve para o brincar, fazem-se brinquedos para a pele. Enfeita-se o corpo, envolve-o de materiais finos e delicados.

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           Unhas de pétalas diversas. Brincos de cerejas. Guirlandas e narizes de papoulas. O urucum, suas sementes servem para colorir o corpo, e para pintar as unhas com sua tintura. Sapatos de folhas de bananeira, colares de sementes. Toda esta pele da natureza, de cores, plumagens, veios fininhos e veludos, enrama a criança no chão da vida, faz a sua pele de pele das árvores, das flores, das cascas. Faz também a pele de suas bonecas das cascas do milho. Da pele dura – de tartaruga – da noz nascem bichos de casco ocre.
          Das peles da vagem do pereiro sertanejo nascem galinhas d’angola com tons de ouro, do mangará da bananeira nascem boizinhos de pele vinho. E toda a fauna, os corpos dos bichinhos de brincar fica rica em tons e cores, uma fauna imaginária adornada da pele e dos corpos da natureza. Muito mais vida tem nestes seres de meninos demiurgos que criam mundos!

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          Menino que virou planta, menino louva-deus, menino passarinho, menino falcão, menino pedra, menino onça, menina lama. Menino que não se sente só em seu corpo, mas que vive uma vida de fazer de si o outro, ou de fazer-se nos outros. Mas não de qualquer maneira. A intuição imaginária da criança quer fazer de si o que há de mais belo no outro. Fazer sua pele a pele do belo na natureza, a que causa maior impressão, maior brilho, mais estranhamento de cor, maior riso, mais sustos. Como os meninos papangus que se cobrem de palhas no litoral do Ceará – peles espirituais – e mais parecem Orixás correndo brincando e assustando. A natureza, seu estranhamento íntimo à imaginação, mergulha a criança num animismo dos tons, das iridescências, das formas e das cores. Mesmo com a pele da natureza a imaginação não deixa a criança na superfície, sempre trás lições de fonte.

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          Entretanto o olho oblíquo (Barros, 2006) da imaginação nas crianças, como olho de pássaro, não fica só no fundo e não visto, ou só na superfície e seus tons. Plaina em busca do suspenso. As formas de suspensão na natureza são talvez os campos de maior largueza no brincar. Olhos de asas vagueiam em busca de um ponto no ar. Uma borboleta cor de neve e bordas douradas, um cardume de formigas de asas, uma semente emplumada projetada para o voo. Um gafanhoto com ar de general.
          As sementes aéreas, especialmente as emplumadas, são brinquedos de acompanhar, de observar, de permitir e preservar dos outros meninos o seu voo lento e levíssimo. Os adultos costumam dizer que algumas destas sementes cegam. Reprimem logo pelo olhar, justo o olhar das asas, o mais livre e mais distante das reprimendas do chão. Aquele em que a imaginação alça a criança às impressões do sideral, do alto supremo. Das possibilidades de fuga e superação da gravidade, do grave espaço material.

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          Gafanhotos capturados com cuidado – com leveza e vôo das mãos – para que nenhuma de suas partes seja danificada. Amarram uma linha leve em uma de suas patas e o deixam voar. O interesse são as impressões do vôo. A repercussão das asas sentidas na linha submerge fundo nas imagens do deslocamento. Imagens de salvação que a suspenção rápida promove diante do perigo. A fuga ancestral, perfeita às ameaças do desconhecido. O campo de visão plena, larga, distanciada. E logo o gafanhoto é solto e admirado numa última lição do ar.
          Flores com hélices que postas a secar fazem uma manhã inteira de experimentações da flutuação. Flores atiradas das árvores descem em pirueta lenta, calma e possível de admirar. Quanto mais lento o flanar mais a imaginação se contenta com as impressões do vôo, mais repercutem imagens celestes, a pureza dos seres que sabem voar. O leve no imaginar, compõe imagens do sublime, angelicais, da elegância altiva, da majestade silente e nobre. Flutuar é o intento de toda criança e suas pesquisas de morar sem se prender, sem se perder de tudo, da ideia de que o alto é o mais seguro amigo do visionário olhar. Abarcar o todo fazê-lo um na visão, só é possível dotado de asas.
          Para não mais tanto nos estendermos vou aqui me recostando numa pedra boa de repousar. O caminho ainda é longo. Teríamos dele ainda muitas coisas a perceber, muitas imagens para absorver. A alma da criança ainda um tanto dela haveremos de nos lembrar. Por enquanto concluo com mais umas poucas linhas. Está tudo na natureza, os brinquedos todos estão lá ou, depois do que vimos, estão também cá. Ouçamos as crianças, daí saberemos novamente brinquedos de todos os modos fazer.
          Das coisas do oculto, das peles e superfícies, da suspensão e das asas, a natureza é um imenso ser onde a criança sabe se fazer ecoar, ecos bem audíveis e desdobrados unem um vão – distante – a outro. Um enorme abismo solitário que desconhecia a sua fundura e silêncio acorda com ecos velozes de imagens que unem os sentidos de ser. Une o chão à altura, a superfície à profundidade da criança. Inteira, integra, cria campos de sentido, embeleza, faz sonhar.
          Adiante, quando despontarem os primeiros ramos da consciência, os mais sólidos fundamentos da racionalização, a criança saberá transmitir todo este tesouro de imagens em sonhos de integridade da razão, de totalidade da consciência, de organicidade do mundo, de interligação do todo, de teia das relações, de reconhecimento dos fundamentos da multiplicidade, de aptidão para trafegar com alegria e louvor à diversidade.
          Desejo que a sua, a criança em si, que por este pequeno texto caminhou, tenha se refeito a imaginar procurando fendas, casulos, ocos e ninhos para preparar nascimentos. Há tanto o que aprender só nos basta nascimentos preparar!

BIBLIOGRAFIA

BACHELARD, A Poética do Espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
BACHELARD, A Terra e os Devaneios da Vontade. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
BACHELARD, G. A Poética do Devaneio. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
BACHELARD, G. O Ar e os Sonhos. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
BARROS, M. Memórias inventadas. São Paulo: Planeta, 2006.
BARROS, M. Concerto a Céu Aberto Para Solo de Aves. São Paulo: Record, 2004.

Gandhy Piorski Aires é Teólogo (UFC), Mestre em Ciências das Religiões (UFPB), Artista e Pesquisador das práticas da infância.

A Casa Azul

“Sai do meio!”, “olha a lapada”, “errou, deita, deita!”. Depois que a chuva deixa o chão de terra do terreiro da Casa Azul batidinho, os meninos se amontoam por ali, braços ligeiros e falas apressadas, para fazer o pião rodopiar em manobras arriscadas. No meio de tamanha agitação, entre os intensos zunidos dos giros do brinquedo e as disputas narradas de forma acalorada pelo meninos, ouvimos um grito lá de dentro: “Augusto, larga aí, cabinha, tá na hora do programa!”.

Augusto é um dos cabinhas que corre os dias pela Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri, lugar onde viver-aprender-brincar-crescer-ser são verbos conjugados com a mesma intensidade. O programa é Submarino Amarelo, que há tempos vai ao ar na Rádio Casa Grande FM. Já a Casa Azul, assim como os meninos-personagens dessa história, é importante protagonista de uma narrativa afetiva que se desenrola no dia a dia de um pedaço de Brasil que se configura em Nova Olinda, cidadezinha sertaneja do Cariri cearense. (Ah, e cabinha é como as crianças são chamadas na região do Cariri. Cabra vira caba, que vira cabinha.)

São muitas as histórias que já ouvi os meninos, os tais cabinhas, narrando sobre suas peripécias na Casa Azul. Ela, a Casa, está nas muitas fotos que as crianças de lá tiram, também surge entre os versos das narrativas infantis escritas em cordel nessa terra de Patativa do Assaré. Talvez, não sei bem, a Casa Azul seja a maior protagonista dessa história contada aqui – e olha que a galeria de personagens ilustres é extensa: as crianças (e as já não mais tão crianças) Miguel, Samuel, Helinho, Aécio (Bilu), Júnior, Fabiana, João Paulo, Aureliano, Yasmin, Samara, Bruninha, Taynara, Letícia, Thiaguinho, Felipim, Thales, Alycia e, claro, Alemberg e Rosiane (menino e menina crescidos que estão na origem de tudo).

Convido então o leitor a entrar nessa Casa e conhecer um pouco tal experiência – se é que isso é possível em tão poucas palavras. Do terreiro onde há pouco os meninos rodavam o pião (sinto ainda o cheiro de terra molhada), adentramos na sala do Memorial do Homem Kariri. Ali, logo somos recepcionados por Cariuzinho, imagem de madeira de um menino índio, antigo cariú, herdado de uma senhora cabocla da região. O indiozinho, imóvel, aparece ao lado de uma das saltitantes crianças (talvez Yasmin, Bruninha ou Thales), provavelmente com a fardinha (o uniforme de camiseta branca e calça vermelha) suja de terra – coisa de criança que brinca.

Na parede da mesma sala, Santo Antônio, São Miguel e São Jorge se misturam com as fotos antigas, já esmaecidas, de duas crianças, um menino e uma menina – símbolo da eterna infância, uma Terra do Nunca sertaneja. São as imagens de Alemberg Quindins e Rosiane Limaverde, casal que nos anos 80 se dividia entre a vida nos festivais de música e as pesquisas das narrativas míticas do Cariri a bordo de uma moto. Nessas andanças, foram reunindo histórias, fotos, objetos, peças da arqueologia (vasos de cerâmica, ferramentas de pedra) da região. Assim, criaram em 1992 um memorial numa casa do século 18, construção que deu origem à Nova Olinda, onde vivia Neco Trajano, avô de Alemberg. Era um jeito de preservar suas origens e retribuir tudo àquela gente.

Das janelas laterais da Casa Azul, avistamos o Parque do Véio Leonso, onde as crianças brincam de escorregar e balançar, entre o entra-e-sai das atividades nas salas que abrigam diversos laboratórios da Fundação Casa Grande. Numa se faz gibi, na outra há uma DVDteca com filmes de arte, numa terceira aprendem arqueologia. Há ainda biblioteca, estúdio de edição de audiovisual e teatro, este último numa construção que remete às antigas casas de engenho da região. Todo canto da Casa tem uma história a ser contada – e diz a lenda que a Tapera (em tupi-guarani, casa velha abandonada, como já foi chamada) foi mal-assombrada no passado. Hoje, só o assombro de quem chega desavisado.

Na Casa Azul, as crianças carregam nas mãos uma vassoura do mesmo jeito que empunham uma filmadora. Elas recebem os visitantes no memorial (local que percorremos em palavras nos parágrafos anteriores), escolhem as músicas e contam histórias nos programas da rádio, acompanham a arqueóloga Rosiane em trabalhos de escavação nos sítios arqueológicos, brigam para definir os rodízios de tarefas às vezes (ou quase sempre), organizam a programação do teatro, que já recebeu artistas como Manu Chao, recolhem o lixo do banheiro. Se existe protagonismo infantil, ele mora na Casa Azul.

Entre o parquinho e a biblioteca, meninos e meninas são autoras e autônomas, o que é visível em suas criações, que têm a marca da irreverência das crianças. Quando conheci a Fundação Casa Grande, estavam no auge das paradas de sucesso da Rádio Casa Grande FM as músicas da bandinha de lata Os Cabinha, que reunia um grupo incrível de cinco meninos (Momô, Iêdo, Rodrigo, Artur e Renê). Crias da FCG, eles tocavam na lata, cantavam no gogó sem medo de errar e inventavam composições como Noite de Lua, com versos animados assim:

“Um dia, noite de lua
Abri a porta, fui cagar no meio da rua
A bosta endureceu, passou um jipe e furou o pneu
Levaram pra prefeitura, examinaram, era bosta pura
Levaram para o xadrez; se duvidarem, eu cago outra vez.”

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Já li várias definições para o trabalho da Fundação Casa Grande, coisas como uma “escola de comunicação e gestão dos meninos do sertão”. Pra mim, a Casa Azul é um verdadeiro laboratório de experiências de infância – ou para experimentar, viver e habitar com vontade a infância. Laboratório “experimental” esse que nasceu na infância de seu fundador, Alemberg Quindins, que se lembra com fervor de suas criações mirabolantes de menino, inventor de cineminha em caixa de papelão numa cidade onde não chegava nem gibi e repórter das partidas de futebol que rolavam no “campinho do pé-de-pequi”. Sem se apegar a teorias pedagógicas, Alemberg costuma dizer que a Fundação Casa Grande não é espaço de formação, mas lugar de vivência. A Casa Azul é morada da infância.*

* Texto feito especialmente para a publicação comKids Inovação. Também publicado no site do Infâncias (www.projetoinfancias.com.br)

Procura-se professor que não queira ensinar – ou só ensinar

Ainda me lembro das minhas duas brincadeiras preferidas, que marcaram a minha infância. Uma delas era pegar uns bloquinhos de madeira com as letras do alfabeto pintadas em verde e fingir que era um teclado. Passava um bom tempo batendo no meu teclado dos “Flinstones” achando que era uma escritora. Aquilo acabava com meus dedos de tão duro. A outra era colocar as bonecas sentadas em fileiras, com um caderno e um lápis na frente e dar muitas aulas escrevendo numa pequena lousa – quadro negro para os cariocas – e ensinando meus alunos inanimados sobre muitas coisas: palavras, equações, mapas. De alguma forma as duas se transformaram em uma ocupação. Sou redatora, planejadora e blogueira. Escrevo muito e ainda sinto dor na ponta dos dedos em dias de muito trabalho, mas os teclados dos laptops e computadores são bem mais macios que o meu teclado de brincadeirinha. Há algum tempo passei a ser professora. Dou aula em universidades, em empresas e em grupos mais informais.

É uma das coisas que mais gosto de fazer na vida. Sinto o que alguns psicólogos chamam de “experiência de fluxo” quando estou dando aulas. É algo tão visceral, tão intenso, tão desafiador e prazeroso que nem sinto o tempo passar. Como nem sempre bebo água termino muitas aulas rouca, mas absolutamente feliz.

O ofício de professor, dizem, precisa de vocação, preparação, dedicação. Acredito nisto. Entretanto, olhando para alguns dados históricos esta não é uma profissão muito “nobre”, como medicina, engenharia, direito. No século XIX, o serviço público britânico começou a contratar trabalhadores por meio de concursos públicos, o que deixou a aristocracia da época aborrecida.

Até então os empregos bons eram para os mais abastados e influentes. Esta ideia meritocrática, de testar conhecimentos era uma novidade. Na época, as pessoas sem recursos não conseguiam seguir as carreiras concorridas, como direito, medicina e clero e acabavam virando cobradores de impostos, escriturários ou…professores. Não é da época, mas bem antiga a frase “quem sabe faz, quem não sabe ensina”. Preconceituosa, mas que traz à tona a relação entre teoria e prática. Será que os professores devem dominar ambas?

O que mais leio, escuto e estudo é que o papel do professor está em plena evolução e que um dos grandes problemas é que somos treinados para ensinar. E ensinar, na maior parte do tempo, é uma relação de mão única: eu ensino, vocês aprendem. Só que, ainda bem, os alunos do século XXI não são como as minhas bonecas da infância, que ficavam ali passivos, imóveis, apenas absorvendo o que eu passava para eles (sempre acreditei nisto). Dar aulas hoje é muito mais desafiador, desde a pré escola até à pós graduação. Existem ótimos exemplos de novos modelos, como a experiência educadora de Reggio Emilia, que entende que a tarefa prioritária dos adultos é a escuta e o reconhecimento da potencialidade de cada criança, que deve ser observada e atendida de forma individual. Com partes do currículo cheia e parte vazia, o professor deve aprender a ensinar construindo junto com o grupo, numa postura bem mais colaborativa.

Passei um dia com Peter Guttenhofer, educador, que forma professores na pedagogia Waldorf no mundo todo em uma experiência de reflexão sobre esta grande pergunta: “Como ser professor em um mundo completamente transformado? Entre muitas descobertas e aprendizados guardei alguns ensinamentos.

É preciso estar aberto para ocupar um papel de facilitador, mediador, co-construtor do conhecimento e sair de um pedestal de “dono da verdade” de uma disciplina. Os saberes, aliás, não cabem mais nestes contornos chamados disciplina. São cada vez mais amplos e multidisciplinares. É preciso desenvolver enigmas e não oferecer respostas prontas. Despertar um certo “maravilhamento” com o aprender e ensinar, descobrir. Ele citou duas situações muito encantadoras. Uma delas a da sua filha, de 6 anos, quando descobriu que quando cortamos a maçã na horizontal descobrimos que todas têm uma estrela de cinco pontas no seu miolo. Na época do Natal, na Alemanha, elas são cortadas assim, penduradas na árvore e, quando a luz das velas passam por suas fatias, refletem uma estrela natalina. Uma oportunidade de aprender e ensinar falando sobre a maçã, uma fruta tão simbólica e que só existe por conta do trabalho do homem, há muitas gerações.

A outra foi uma comparação sobre a nossa relação com o sol e a do tempo dos egípcios. O povo no Egito dormia toda noite preocupado se a deusa Íris ia conseguir reunir todos os pedaços do sol que o dragão engolia durante a noite. Um drama diário. Nós podemos saber precisamente a hora do nascer do sol em cada canto do planeta por conta da nossa evolução tecnológica. Nada contra a tecnologia e o desenvolvimento da ciência, mas de fato perdemos o prazer de não saber, descobrir, nos surpreender.

Ser professor é equilibrar momentos de transmitir todo um conhecimento construído ao longo da sua carreira com momentos de troca, descoberta, dúvidas compartilhadas, sempre respeitando o repertório de cada aluno e se ampliando com ele.

Tânia Savaget Favoritar, carioca, mãe de 3 filhas, diretora de branding e educadora.
Conteúdo previamente publicado no Blog Brasil Post: http://www.brasilpost.com.br/tania-savaget/procurase-professor-que-n_b_7777322.html?ncid=fcbklnkbrhp…