Brincar na natureza

Brincar com elementos naturais é fundamental para o aprendizado e a solução construtiva de problemas. As crianças estão crescendo com menos liberdade para fazer suas próprias escolhas. Desta maneira elas se tornam adultos com baixa criatividade, perdendo sua infância e a oportunidade de serem pessoas autônomas e independentes. Crianças já são normalmente ativas. Elas só precisam de espaço. Atualmente quase não é dada a elas a possibilidade de brincar com esforço físico.

Segundo pesquisas divulgadas recentemente, uma nova geração já demonstra mais fraqueza em atividades com relação à geração de crianças de dez anos atrás. “É questão do uso e desuso. O que você não usa, atrofia. O que você usa, melhora a sua performance, melhora a sua prática”, explica o presidente da Sociedade de Pediatria do Rio de Janeiro, Dr. Edson Liberal.

No seu livro “ The Last Child in the Woods”, o pesquisador americano, Robert Louv identifica disfunção nas crianças, gerada pela falta de contato com a natureza enfatizando que:
• Crianças humanas não são “desenhadas” para sentar-se na frente das “telinhas”. É contra a sua natureza humana e precisam de tempo e oportunidades para brincar nos espaços externos;
• Manter as crianças fechadas em casa ou nas escolas, sob olhares vigilantes o tempo todo, impede que desenvolvam sua independência e a capacidade de avaliar e correr riscos;
• Investimos mais e mais em tecnologia e brinquedos industrializados e oferecemos menos possibilidades de escalar e subir em árvores. Instalações artificiais nunca poderão ser comparadas à complexidade e à diversidade da natureza e atendem, muitas vezes, às necessidades dos adultos;
• Proporcionar educação ambiental é oferecer às crianças, oportunidades para conhecer os pássaros, insetos, árvores, estimulando-as a observá-los fora da sala de aula.

Podemos citar alguns efeitos positivos de brincar na natureza: liberdade, criatividade, atividade física, estímulo, habilidade motora, imaginação, capacidade de observação, interações sociais, relaxamento, tolerância à diversidade. Atividades na natureza oferecem oportunidades para que todos se envolvam em eventos na sua própria comunidade, dando-lhes o sentido de pertencimento.

O design dos espaços deve: oferecer oportunidades para brincar com elementos da natureza e combiná-los com os equipamentos; utilizar os desníveis e vegetação locais; ser desenvolvido com a participação da comunidade do entorno; oferecer oportunidades para todas as idades, incluindo os adultos e as pessoas na terceira idade.

A carência de contato com a natureza, muitas vezes motivada pela insegurança dos pais em permitir que seus filhos corram riscos, associada a uma agenda com excesso de atividades para as crianças, foi apontada em pesquisa recente realizada pela Associação Brasileira de Psiquiatria, como fator que vem provocando nas crianças, transtornos de ordem física e emocional. O excesso de expectativas e cobranças altas em relação a elas pode ainda gerar pressão e provocar estresse nas crianças. A criança que brinca na natureza e livremente, beneficia-se dos atributos da espontaneidade, autocontrole, imprevisibilidade, falta de propósito e controle pessoal. Os adultos devem permitir que as crianças brinquem!

Marilena Flores Martins, Assistente Social, consultora na área do brincar e do Desenvolvimento Social. Co-fundadora da IPA Brasil- Associação Brasileira pelo Direito de Brincar e à Cultura.(www.ipabrasil.org).