Vozes da Cidade diversifica as vozes das crianças

Incluir crianças oriundas de famílias com maior poder aquisitivo foi uma necessidade detectada para aumentar a diversidade de vozes das crianças escutadas até então pelo projeto Vozes da Cidade. Depois de escutar grupos de crianças que representam a maioria menos favorecida da cidade, a equipe do projeto esteve, no dia 27 de outubro, no Curumim Espaço de Convívio. O lugar recebe crianças da Pituba, Rio Vermelho, Caminho das Árvores e Federação. Foi o 11º grupo de crianças escutado. No total foram escutadas 120 crianças.
O encontro no Espaço Curumim ajudou a qualificar as escutas ao expor, por meio da fala das crianças, as marcas das disparidades socioeconômicas de uma cidade onde coexistem proteção social com violação de direitos e altos índices de violência. As vozes dessas crianças ajudam a expor os tons dessas desigualdades e traçam o que há de comum entre esses mundos.

Mobilidade urbana

Para iniciar a escuta, a equipe do projeto quis saber sobre o caminho até a escola. Emília, de 8 anos, conta que enfrenta um engarrafamento diário para chegar. Ela e outros, que também vivem na mesma área – alguns estudam na mesma escola -, acreditam que o engarrafamento é devido a outra escola que fica localizada no meio do caminho, na via principal do bairro da Federação. Mariza diz que “sofre muito” para sair de sua casa no Rio Vermelho para chegar à escola, localizada na Federação, por conta do mesmo engarrafamento.
Gabriela, de 8 anos, acha que começar mais cedo as aulas da escola que fica na via principal, cujo fluxo de carros é intensa, seria a forma de diminuir o engarrafamento, que é fruto da falta de estacionamento para os pais deixarem seus filhos. Emília, apesar de ir a pé para a sua escola, propõe que cada instituição comece as aulas em horários diferentes, acreditando que isso poderia resolver o problema de seus coleguinhas. E para mobilizar/educar a população, não faltaram sugestões do grupo: “Tem que falar com todo mundo sobre sair em horários diferentes”, “a gente pode ir no rádio”, “fazer um protesto na rua”, “fazer um vídeo e botar no facebook”.

Com o pé na rua

O fato de ir à pé para a escola não evita que Emília também veja problemas no caminho. “As calçadas têm muito cocô de cachorro”, diz. Gabriela também reconhece que as ruas e calçadas perto de sua casa são muito sujas porque os donos dos cães não recolhem seus dejetos.
O tema higiene inspira Gabriela a continuar falando. “Moro perto do Iguatemi e são muitas construções e elas causam muita sujeira, tem muita poeira também, até pombo morto já encontrei na rua”.
Expandindo um pouco mais a visão da cidade, os meninos e meninas do Espaço Curumim começaram a falar das praças. Ao contrário de outras crianças escutadas anteriormente, elas vivem em áreas da cidade com oferta de espaços públicos de melhor qualidade, o que não diminui a visão crítica das crianças.
Emilia, que tem três cachorros, por exemplo, diz que não conhece uma praça pensada para os seus animais de estimação. “Não tem espaço para eles correrem alucinadamente”, aponta. Arthur, por outro lado, reclamou do fato de que os cachorros nas praças criam um ambiente sem higiene. “Eu já peguei micose porque brinquei em terra que tinha cocô e xixi de cachorro”. Mariza propôs que se colocassem placas nas praças dizendo para os donos levarem seus animais pra fazer xixi nos postes e também recolherem as fezes. Maya quer que concertem os brinquedos que estão quebrados nas praças. Valentina, de três anos, conta que já caiu de um balanço que se quebrou.

Segurança

Mariza afirma que não se sente segura em Salvador. Emília lembra que a irmã foi assaltada e chegou descalça em casa. O celular da babá de Gabriela foi levado pelos ladrões. Maya deu a entender que a violência envolve uma questão de classe e raça. “Só porque é negro não pode dizer que é ladrão”, disse. Gabriela conta que tem um ladrão que todo mundo sabe quem é, sabe a roupa que usa, inclusive o boné, e que ninguém faz nada. Para Mariza, um policial na frente de cada casa resolve o problema da insegurança. Contudo, quase todos disseram confiar na Polícia.
A psicóloga responsável pela equipe de escuta da crianças no projeto e consultora associada da Avante – Educação e Mobilização Social, Ana Marcílio, lembrando das escutas anteriores, diz acreditar que os menos abastados “convivem com uma dicotomia sobre a força de segurança, que deveriam protegê-los, mas matam as pessoas. Ou seja, ao mesmo tempo que valorizam a proteção da polícia, eles também temem essa polícia que mata pessoas”.
Contudo, ressalta ela, “a violência está presente em ambos os discursos, ainda que para as crianças de famílias de classe média essa violência os atinja de maneira apareça de maneira diferente, indireta, seja pela televisão ou nos assaltos aos adultos, como no exemplo das babás. Ainda que seja uma violência mais protegida e regulamentada, eles sabem e temem a violência na cidade”.

Diferenças

Para Ana Marcilio, a diferença mais marcante nas visões de cidade entre os grupos de crianças de classes sociais diferentes é “o desnível entre as proteções em que vivem”. Há crianças extremamente desprotegidas e outras bastante protegidas, “até mais do que talvez fosse necessário”. Outro ponto destacado por Ana Marcilio é a pouca convivência nos espaços públicos das crianças de classe média. “A relação com a vida é muito mais privatizada, o público desaparece. É legal esse movimento deles irem às praças, mas suas escolas não são públicas, os melhores espaços para brincar não são públicos, hospital e médico não são públicos, nem a mobilidade. É tudo privado. Então é outra lógica de pertencimento da cidade. Já as crianças das famílias pobres estão nos espaços públicos o tempo inteiro”.

Medos

Foram as similitudes em relação a aspectos da infância entre as duas realidades que chamaram a atenção de Ana Marcilio. “Encontramos muito pouco da fantasia da infância, mesmo com os pequenos de 4 e 5 anos. O medo do fantasioso desaparece. O medo é de morte, de sangue, de assalto, de tiroteio, etc. Não tem monstro, dragão, bicho papão. Ao mesmo tempo que me deixa curiosa, me assombra um pouco o grau de realidade que está infiltrado na infância. Os medos são muito reais”, pondera.
Para a psicóloga Ivanna Castro, consultora associada da Avante, que fez parte da equipe de escuta, a experiência têm sido enriquecedora, não só no Espaço Curumim, mas em todos os outros espaços de crianças onde o projeto atuou. “Elas trazem aspectos que as vezes não imaginamos que viria de uma criança. Eu tinha expectativa de que seriam coisas interessantes, mas não tinha ideia do que. E a surpresa veio da leitura que elas têm da cidade, do conhecimento sobre suas problemáticas. Elas não fantasiam quando se pergunta sobre o lugar onde moram, elas falam do real, do concreto. Além disso, trazem contribuições para as soluções que, independente da classe social e da idade, são parecidas com a dos adultos.”